Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M95

Fédon

Platão
Busto de Platão, cópia romana do séc. IV a.C. — Musei Capitolini, Roma.
Busto de Platão, cópia romana do séc. IV a.C. — Musei Capitolini, Roma.

É o último dia da vida de Sócrates. No cárcere ateniense, cercado pelos amigos mais próximos — Símias, Cebes, Críton, Fédon, que dá nome ao diálogo —, o filósofo conversa sobre a imortalidade da alma enquanto aguarda o carcereiro trazer a cicuta. Platão não estava presente, por doença; reconstruiu o diálogo a partir de relatos. O que nos entrega é a cena mais célebre da filosofia antiga: um homem de setenta anos, condenado injustamente à morte, prepara-se para beber o veneno discutindo, com serenidade racional, se a alma sobrevive ao corpo.

Sócrates apresenta quatro argumentos para a imortalidade. Primeiro, o argumento dos contrários: toda coisa nasce do seu oposto; a vida, portanto, nasce da morte, como a morte da vida — a alma deve existir antes do nascimento e depois da morte. Segundo, o argumento da reminiscência: aprender é recordar; o que recordamos já estava na alma; logo, a alma preexiste. Terceiro, o argumento da afinidade: a alma é parecida com as Ideias — invisível, simples, eterna —, e por isso, como elas, deve ser imortal. Quarto, o argumento final, mais técnico: a alma, por essência, traz consigo a vida; o que traz a vida não pode, por definição, morrer. Os interlocutores ficam convencidos. Sócrates pede então que se lhe traga a cicuta.

O Fédon é, provavelmente, o diálogo platônico mais amado pelos séculos. Dele saíram, por caminhos diversos, o cristianismo patrístico (que encontrou ali a preparação filosófica para a doutrina da alma imortal), a filosofia islâmica medieval (que meditou os seus argumentos), e a tradição mística cristã. A cena final é descrita por Fédon, o narrador, com uma sobriedade insuperável. Sócrates bebe a cicuta. Caminha enquanto o veneno sobe pelos pés. Deita-se. As últimas palavras, dirigidas a Críton — “devemos um galo a Asclépio; não te esqueças de pagar a dívida” —, deixam os comentadores discutindo há dois mil e quatrocentos anos. Asclépio é o deus da medicina; oferece-se um galo em agradecimento pela cura. De que doença Sócrates se curava, ao morrer? A vida, responderão os platônicos. Talvez. Talvez não. É a última lição do mestre: deixar a pergunta aberta.

Minhas notas