Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M94

Apologia de Socrátes

Platão
Jacques-Louis David, <em>A Morte de Sócrates</em>, 1787 — Metropolitan Museum of Art, Nova York.
Jacques-Louis David, A Morte de Sócrates, 1787 — Metropolitan Museum of Art, Nova York.

Atenas, ano 399 a.C. Sócrates, setenta anos, filósofo que passou a vida a interrogar seus concidadãos pelas ruas da ágora, é levado a julgamento por três acusadores — Meleto, Ânito e Lícon —, sob a imputação de corromper a juventude e introduzir divindades novas contra as da cidade. A Apologia é o discurso de defesa que Sócrates pronuncia diante de quinhentos jurados atenienses, redigido por Platão poucos anos após a execução. É, muito provavelmente, reconstrução literária fiel, não transcrição literal. Mas é, sem dúvida, o documento mais próximo que possuímos do filósofo real.

Sócrates não se defende no sentido forense. Explica-se. Conta a história do oráculo de Delfos, que declarou ser ele o mais sábio dos homens; descreve como passou a vida a investigar esta afirmação, interrogando os supostos sábios e descobrindo, um após outro, que cada um pensava saber o que não sabia. Conta que nunca recebeu dinheiro por ensinar. Recusa fazer apelos emocionais — trazer a esposa e os filhos ao tribunal para despertar a comiseração dos jurados, prática comum da retórica ateniense. Prefere dizer a verdade inteira. Os jurados o condenam por maioria apertada. Quando, na segunda fase do julgamento, é convidado a propor uma contrapena (exílio, multa), Sócrates sugere provocadoramente que a cidade o sustente às suas expensas, como benfeitor público — e é pela altivez desta fala que a condenação à morte, na votação final, tem maioria ampliada.

A Apologia é o discurso fundador da filosofia ocidental. Nela aparece, pela primeira vez, a ideia de que a busca da verdade é mais importante do que a própria vida — e de que uma cidade que condena a busca da verdade se condena, por esse gesto, à doença que a verdade teria podido curar. “Uma vida sem exame não merece ser vivida”, diz Sócrates num dos pontos altos. A frase é a certidão de nascimento da filosofia crítica. Ninguém que leia este texto com seriedade sai dele o mesmo que entrou.

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