A Consolação da Filosofia
No ano 524 d.C., o filósofo e senador romano Anício Mânlio Severino Boécio foi condenado à morte por traição pelo rei ostrogodo Teodorico, após uma intriga palaciana em que foi acusado de conspirar com o imperador bizantino de Oriente. Preso em Pavia, à espera da execução, compôs o livro pelo qual seria lembrado pelos mil anos seguintes: De consolatione Philosophiae. Escreveu-o em prosa e verso alternados, à maneira da sátira menipeia, em cinco livros. Dialoga com uma figura feminina, a Filosofia, que lhe aparece na cela em forma de mulher majestosa, de cabelos grisalhos, carregando livros e um cetro, e lhe dirige a palavra como a médica a um enfermo distraído.
A Filosofia começa por criticar a Fortuna — a deusa cega que distribui honras e misérias sem critério. O prisioneiro se havia acostumado, na sua vida pública bem-sucedida, a considerar como merecidos os bens que a Fortuna lhe concedera; estranha agora que ela lhe retire esses bens. É preciso desaprender esta confusão. Os bens verdadeiros são internos; não dependem da Fortuna; não se perdem. A Filosofia o reconduz, passo a passo, ao que chama de “Sumo Bem”, que coincide com Deus. No livro V, conduz Boécio através da mais difícil questão da antiga filosofia: como conciliar a presciência divina com a liberdade humana? A resposta, célebre, é que Deus não pré-conhece os acontecimentos numa sucessão temporal — Deus os conhece num único eterno presente. A liberdade humana é, portanto, compatível com o conhecimento divino.
Boécio foi executado poucos meses depois de terminar o livro. A Consolação, porém, atravessou a Idade Média inteira como manual filosófico fundamental. Alfredo, o Grande, da Inglaterra, traduziu-o para o anglo-saxão no séc. IX; Chaucer o verteu em inglês no séc. XIV; a rainha Isabel I o retraduziu no séc. XVI. É um livro que reconforta porque não mente: não promete a restituição dos bens perdidos, promete a descoberta dos bens que não podiam ter sido perdidos. O leitor que o enfrenta descobre, com surpresa, que a filosofia clássica, na sua despedida do mundo antigo, tinha ainda a força de consolar um condenado. Pouco mais se pode pedir de um livro.