Fedro
Sócrates encontra o jovem Fedro passeando ao longo do rio Iliso, nos arredores de Atenas. Fedro traz escondido um discurso do orador Lísias sobre o amor — discurso que argumenta, paradoxalmente, que é preferível conceder favores eróticos a quem não está apaixonado a quem está. Sócrates, por ironia, produz um discurso ainda mais elaborado na mesma linha. Depois se arrepende, reconhece que blasfemou contra o amor — que é deus — e pronuncia um terceiro discurso, retificador, em que expõe a célebre alegoria do carro da alma: uma biga puxada por dois cavalos alados, um nobre e obediente, outro rebelde e desejante, conduzidos pelo auriga que é a razão. A alma humana que consegue subir ao céu e contemplar as Ideias eternas é aquela cujo auriga controla o cavalo rebelde; a alma que cai, perdendo as asas, é a que se deixou dominar.
A segunda metade do diálogo muda de assunto: discute a retórica. Sócrates e Fedro examinam o discurso de Lísias como objeto artístico e encontram-no malconstruído. A partir daí, Platão desenvolve a sua famosa crítica da escrita: a palavra escrita, ao contrário da falada, não pode responder às perguntas do leitor; fica sempre repetindo a mesma coisa, sem adaptar-se a quem a recebe. Por isso, diz Sócrates num dos mais famosos trechos da filosofia ocidental, a escrita é como a pintura: parece viva, mas está morta. O verdadeiro saber se transmite de alma para alma, pela palavra viva do diálogo.
Fedro é um dos diálogos mais belos de Platão. Reúne num mesmo texto a metafísica (as Ideias eternas), a psicologia (a alma e seus cavalos), a teoria do amor (como ascese à beleza eterna) e a filosofia da linguagem (contra a fixação da palavra escrita). A paisagem em que a conversa se desenrola — o prado à beira do rio, a sombra do plátano, o calor do meio-dia — tornou-se paradigmática para todos os diálogos filosóficos posteriores. Quem lê Fedro percebe, com desconcerto, que Platão está fazendo, numa obra escrita, a crítica da obra escrita — e que o paradoxo é consciente. Platão confia à escrita o único pensamento que sabe ser insuficiente para a sua própria preservação. É por isso que ainda o lemos.