Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M69

Teogonia

Hesíodo
Busto identificado como Hesíodo, cópia romana de original grego — Neues Museum, Berlim.
Busto identificado como Hesíodo, cópia romana de original grego — Neues Museum, Berlim.

No século VIII a.C., na Beócia rural, um pastor chamado Hesíodo — que é ao mesmo tempo poeta e agricultor — diz ter recebido das Musas, no monte Hélicon, o dom de cantar a origem dos deuses. Senta-se e escreve. Compõe, em mil e vinte e dois hexâmetros, a mais antiga tentativa sistemática da tradição ocidental de organizar as divindades gregas em uma ordem: quem veio de quem, quem gerou quem, quem destruiu quem. Do Caos inicial nasce Gaia, a terra; de Gaia nasce Urano, o céu; a união dos dois gera os titãs; o titã Cronos destrona o pai e devora os próprios filhos; Zeus escapa, destrona o pai, vence os titãs e instaura a ordem olímpica. A Teogonia é esse poema-árvore genealógica — tanto mito quanto filosofia incipiente.

Hesíodo é, com Homero, a outra voz fundadora da cultura grega. Mas as duas vozes são diferentes. Homero canta heróis; Hesíodo organiza deuses. Homero narra; Hesíodo explica. Homero pertence à aristocracia épica; Hesíodo é camponês — em outro poema, Os Trabalhos e os Dias, ele fala da justiça, do trabalho e da desonestidade do irmão Perses, que o espoliou. Essa dupla origem — a aristocrática homérica e a popular hesiódica — define toda a literatura grega dos séculos seguintes. Quem quiser entender por que existem, em Atenas, Platão e Aristófanes simultaneamente, precisa voltar a essas duas origens.

A Teogonia é, à primeira vista, um catálogo. A segunda leitura mostra que é mais do que isso. Ao organizar os deuses em ordem de nascimento, Hesíodo formula uma visão de mundo em que o universo não é estático nem caótico: é a história de uma conquista da ordem sobre o caos primordial, conquista repetida em gerações divinas sucessivas, com violência, erotismo e estratégia. Zeus, no fim, vence e governa, mas não sem sangue nem sem medo. Nietzsche, dois mil e quinhentos anos depois, veria aqui a chave de toda a mitologia trágica. Hesíodo é pouco lido hoje — e essa é a medida exata do analfabetismo clássico em que a educação contemporânea mergulhou.

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