Os Lusíadas
Em 1572, quando a língua portuguesa contava apenas quatro séculos de existência literária, publicou-se em Lisboa um poema épico de dez cantos, distribuído em oitavas heroicas — ao todo, 1.102 estrofes, 8.816 versos decassílabos. Camões, veterano mutilado das guerras do Oriente, tinha escrito, e agora entregava ao rei dom Sebastião, a mais ambiciosa obra literária em língua portuguesa até então. O poema narra, na sua superfície, a viagem de Vasco da Gama à Índia em 1497–1498. Mas Os Lusíadas não são apenas a epopeia dessa viagem; são a reelaboração, em grau épico, de toda a história de Portugal — desde a fundação do reino com dom Afonso Henriques até as descobertas oceânicas do século XV.
Camões se vale dos recursos clássicos da epopeia — o Concílio dos Deuses, a intervenção sobrenatural (Vênus favorece os portugueses, Baco os persegue), a narrativa retrospectiva dos heróis. Mas acrescenta-lhes algo novo: episódios líricos de extraordinária beleza que interrompem a marcha épica e a iluminam por dentro. O episódio da morte de Inês de Castro, no canto III, é um dos mais altos momentos da poesia ibérica; o episódio do Adamastor, no canto V — o gigante que encarna o cabo das Tormentas e amaldiçoa os navegantes que ousam ultrapassá-lo —, é a invenção poética mais original de toda a tradição clássica portuguesa.
Os Lusíadas não são só patrimônio nacional português — são, para qualquer leitor de literatura ocidental, uma das meias dúzias de grandes epopeias que a tradição reconhece. Camões tem a dignidade de cantar os feitos do seu povo com admiração verdadeira e, ao mesmo tempo, de inserir, em cada canto, a meditação melancólica do soldado que viveu o lado real da epopeia — e que sabe quanto custa, em vidas, cada verso de glória. A última oitava do poema, em que o poeta pede ao rei que o proteja da pobreza, é uma das mais comoventes despedidas da poesia ocidental. Poucos anos depois, Camões morreria na indigência. O poema permaneceria.