O Estrangeiro
Mersault é francês da Argélia colonial. Trabalha como funcionário administrativo em Argel. Sua mãe morre num asilo. Mersault vai ao enterro, não chora, não se emociona visivelmente, fuma um cigarro diante do caixão, toma um café com leite oferecido pelo porteiro. Na volta, começa a namorar uma antiga colega, Marie. No domingo seguinte, acompanha o vizinho Raymond a uma praia. Num equívoco em pleno sol do meio-dia, dispara quatro vezes contra um árabe desconhecido que o ameaçara com uma faca. É preso. Acusado. Condenado à morte. A sentença, porém, não é tanto pelo homicídio; é por não ter chorado no enterro da mãe. O jurado popular, resume o juiz, “tem horror” de um homem que se comporta daquela maneira. Mersault, já na cela, à espera da guilhotina, recusa o sacerdote, explode em lucidez feroz, compreende enfim que o mundo é “indiferente” — e que essa indiferença, aceita plenamente, é a única forma de paz. O romance foi publicado em 1942.
Camus, nascido na Argélia em 1913, escreveu O Estrangeiro aos vinte e oito anos. Meses depois publicaria O Mito de Sísifo, o ensaio filosófico que é o complemento teórico do romance. Os dois livros juntos formam, na filosofia do absurdo, o que Além do Bem e do Mal e Assim Falou Zaratustra tinham sido para Nietzsche meio século antes: duas expressões coordenadas de um mesmo diagnóstico. O diagnóstico de Camus é simples: o universo não é cruel nem justo; é silencioso. A angústia humana é resultado da nossa recusa em aceitar esse silêncio. A solução não é inventar consolos religiosos; é olhar, com lucidez, o que somos — e assumir a vida como tarefa que cada um inventa a cada momento, contra o nada.
O Estrangeiro é um romance curto, escrito em prosa branca, sem ornamento, com uma economia que quase imita a pauta do protagonista. É também, e por isso, um dos livros mais discutidos do século XX. Há quem leia Mersault como monstro. Há quem leia como santo. Há quem leia como representante de um colonialismo ainda não inteiramente questionado pelo próprio Camus. Há quem leia como precursor do niilismo de Sartre. Cada leitura tem fundamento; nenhuma esgota o livro. Por isso ele continua sendo lido, traduzido e discutido. Quem o encerra, fecha-o com a convicção de ter estado diante de algo original, não derivado. É a prova da sua grandeza.