A Morte de Virgílio
Outono do ano 19 a.C. O navio do imperador Augusto chega ao porto de Bríndisi. Trazido a bordo, num leito improvisado, está o poeta Virgílio, gravemente enfermo, voltando da Grécia para morrer em casa. Restam-lhe dezoito horas de vida. Durante essas dezoito horas, o leitor acompanha, em quatro grandes blocos sinfônicos correspondentes aos quatro elementos — Água, Fogo, Terra, Éter —, o monólogo interior do poeta moribundo, que se debate com a decisão central da sua vida: queimar ou não queimar a Eneida, obra inacabada, que ele considera, na hora derradeira, indigna do que pretendera. O romance, publicado por Hermann Broch em 1945, é talvez a mais densa empreitada da prosa alemã do século XX.
Broch escreveu A Morte de Virgílio entre 1937 e 1945 — sob a pressão imediata da catástrofe europeia. Foi preso pela Gestapo em 1938 e libertado pela mediação de amigos, entre eles James Joyce; emigrou para os Estados Unidos. O livro, escrito durante a sua errância, não é um romance histórico convencional sobre o último dia de Virgílio: é uma meditação alegórica sobre o destino da arte e da civilização quando o poder político se torna absoluto. Augusto, na cena central, suplica ao poeta moribundo que não destrua a Eneida — porque o poema é necessário ao Estado romano. Virgílio resiste e cede. Cede no nome da gratidão, da amizade, da fadiga.
A prosa de Broch é difícil. As frases podem cobrir páginas inteiras. O ritmo imita a respiração de um agonizante. O leitor brasileiro tem à disposição a tradução de Herbert Caro, considerada uma das maiores realizações da arte do tradutor em língua portuguesa. Quem encara o livro descobre, nessa lentidão deliberada, uma das poucas obras modernas em que o autor trata, com a seriedade que o assunto merece, a questão sobre se ainda tem sentido escrever quando a barbárie reina. Broch, que escolheu continuar escrevendo, deixa a resposta no próprio fato do livro existir.