Moby Dick
“Chame-me Ismael.” Assim começa, em 1851, o que muitos consideram o maior romance escrito em língua inglesa. Ismael, narrador, embarca no navio baleeiro Pequod sob o comando do capitão Ahab, marinheiro lendário a quem uma baleia branca, anos antes, arrancou uma das pernas. Ahab consagrou o que lhe restava de vida à perseguição daquela baleia — Moby Dick. O navio sai de Nantucket. Cruza dois oceanos. Encontra ventos, calmarias, baleias menores, outros baleeiros, profecias. Aproxima-se, finalmente, de Moby Dick. A perseguição dura três dias. No terceiro dia, a baleia destrói o Pequod. Ahab é arrastado pelo arpão que ele próprio enfiou no flanco do animal. Apenas Ismael sobrevive, agarrado a um caixão flutuante.
Moby Dick não é apenas a aventura de uma caçada baleeira. É uma enciclopédia disfarçada de romance. Capítulos inteiros são dedicados à anatomia da baleia, à classificação das espécies, à filosofia do branco como cor, à etimologia do nome cetus. O leitor desavisado se exaspera; o leitor paciente descobre que Melville está construindo, por meio dessa erudição misturada à narrativa, uma alegoria sobre o conhecimento humano e a sua incapacidade de capturar inteiramente o objeto que persegue. Moby Dick é a baleia, e é também o que está por trás da baleia: a natureza, o destino, Deus, o nada. Ahab a persegue como o filósofo persegue o absoluto. Será destruído pela mesma coisa que tentava conhecer.
O romance foi um fracasso comercial completo. Melville morreu pobre e esquecido em 1891. Só nos anos 1920, com a redescoberta crítica de D. H. Lawrence e outros, Moby Dick foi reconhecido como o que é: o livro mais americano e o mais universal escrito no século XIX no Novo Mundo. A última cena — Ismael flutuando, sozinho, sobre o caixão, no oceano que retomou a aparência da indiferença anterior à catástrofe — é uma das imagens definitivas da literatura ocidental. O sobrevivente é o que pode contar. Quem desce para sempre nada sabe.