Moll Flanders
Moll Flanders nasce numa prisão inglesa, filha de uma condenada que será deportada às colônias logo após o parto. Moll é criada por estranhos. Nos seus longos sessenta anos de vida — narrados em primeira pessoa numa autobiografia descarada —, será criada de família burguesa, amante de patrão, esposa cinco vezes (uma das vezes do próprio meio-irmão, sem saber), prostituta, ladra de joias, presidiária em Newgate, deportada à Virgínia e, finalmente, proprietária honrada. Daniel Defoe publicou o romance em 1722. Para muitos historiadores da literatura, é um dos primeiros romances ingleses no sentido moderno do termo: a vida inteira de uma personagem comum contada como se fosse confissão direta.
Defoe trabalha aqui um material delicado. Moll não é vítima passiva: é mulher de inteligência viva, de senso prático, de constante autoavaliação. Vai do pecado à devoção e da devoção ao pecado com a mesma desenvoltura com que outras heroínas do seu tempo iam do bordado ao baile. O autor não a condena. Apresenta-a como exemplar de um certo modo de sobreviver no mundo em que a pobreza expulsa as mulheres da virtude por pura fome. A sua moral, quando aparece, é tardia: o arrependimento de Moll vem somente quando, na prisão, vislumbra a forca. Convertida pela aritmética do medo, abandona a vida de crime e, instalada na Virgínia com seu último marido, vive em paz e prosperidade até a velhice.
É comum dizer que Moll Flanders é um romance picaresco no estilo dos espanhóis do século anterior. É e não é. O picaresco espanhol exibe os seus heróis para denunciar os vícios da sociedade. Defoe vai além: deixa Moll narrar-se a si mesma, e, no curso dessa narração, mostra que a fronteira entre virtude e vício, dignidade e degradação, salvação e perdição, é muito mais permeável do que o moralismo do tempo admitia. O leitor sai do livro confuso sobre se deve admirar Moll ou puni-la — e essa ambiguidade é o triunfo do autor.