O Coração das Trevas
Marlow, marinheiro inglês, conta a um pequeno grupo de amigos, ancorados num iate ao entardecer no Tâmisa, a história de uma viagem ao interior do Congo. Foi contratado por uma companhia colonial belga para subir o rio até uma estação remota e resgatar um agente afamado, um certo Kurtz, que produzia mais marfim do que todos os outros agentes juntos e cujos métodos extraordinários inquietavam a direção. A novela, publicada em 1899, descreve a subida lenta de um pequeno vapor pelo rio, atravessando estações cada vez mais desfeitas, populações cada vez mais brutalizadas, paisagens cada vez mais alucinatórias, até chegar ao posto onde Kurtz vive — adoecido, semienlouquecido, adorado pelos nativos como uma divindade. Marlow consegue trazê-lo de volta. Kurtz morre durante a descida. As suas últimas palavras, sussurradas ao ouvido de Marlow, são: “O horror! O horror!”
Conrad escreveu o livro a partir da própria experiência: tinha sido capitão de um vapor congolês alguns anos antes. A novela é a primeira grande denúncia literária do colonialismo europeu — não por meio de panfleto, mas por meio da exposição implacável do que o colonizador faz consigo mesmo quando tem o poder absoluto sobre os colonizados. Kurtz, antes de partir para o Congo, era um europeu refinado, idealista, cheio de altos propósitos — “civilizar os selvagens”. O Congo o despe da civilização que ele pretendia exportar. Sob o sol do equador, sem a vigilância das instituições que o tinham contido, Kurtz se torna a coisa mesma da qual se gabava de salvar os outros: um homem capaz de qualquer crueldade.
É também, e talvez sobretudo, uma novela sobre o ofício do narrar. Marlow narra para tentar dar ordem àquilo que viu e não consegue inteiramente. As metáforas — a “escuridão” no meio do continente, mas também no meio do coração europeu — são deliberadamente ambíguas. T. S. Eliot tomou de empréstimo as últimas palavras de Kurtz para usá-las como epígrafe de Os Homens Ocos. Francis Ford Coppola transformou a novela em Apocalypse Now, situando-a no Vietnã. Cada época reescreve este texto porque cada época precisa repensar o que somos quando ninguém nos vê. Quem leu O Coração das Trevas não esquece a pergunta.