Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M60

O Processo Maurizius

Jacob Wassermann
Jakob Wassermann, fotografia de 1934 — ano da sua morte e da consolidação do regime nazista, contra o qual ele já vinha advertindo desde os anos 20.
Jakob Wassermann, fotografia de 1934 — ano da sua morte e da consolidação do regime nazista, contra o qual ele já vinha advertindo desde os anos 20.

Etzel Andergast, garoto de dezesseis anos, filho de promotor público que outrora condenou um inocente, descobre o erro judicial e parte para investigá-lo por conta própria. O nome do condenado é Maurizius. Cumpriu dezoito anos de prisão por um homicídio que não cometeu. O verdadeiro autor — Waremme — vive livre, mudou de nome e prospera. O romance, publicado por Wassermann em 1928, é a primeira parte de uma trilogia que viria a se tornar incompleta com a morte do autor em 1934. Etzel, num esforço que beira o sobre-humano para um adolescente, persegue Waremme até obtê-lo cara a cara e arrancar-lhe a confissão. O pai promotor, confrontado pelo próprio filho, é forçado a reabrir o caso e devolver o homem condenado à liberdade.

Wassermann era um judeu alemão de imensa reputação no entreguerras. Escreveu este livro como reflexão sobre a justiça humana — sobre o modo como ela pode ser perfeitamente legal e, no entanto, profundamente injusta; sobre o peso moral que recai sobre os juízes mesmo quando agiram dentro da lei; sobre a paradoxal coragem dos jovens, que ainda não aprenderam a aceitar como inevitáveis as injustiças que as gerações adultas absorveram como naturais. O processo Maurizius lembra, e foi explicitamente inspirado em, casos célebres do começo do século XX em que tribunais europeus — sobretudo na Alemanha e na França — condenaram inocentes que só anos depois conseguiram a revisão da sentença.

O romance é, do ponto de vista narrativo, denso e moroso, ao gosto de uma certa tradição alemã que considera leveza um defeito. Mas a sua matéria é urgente. Wassermann mostra, antes de qualquer outro autor europeu do entreguerras, o que aconteceria quando a máquina jurídica, alimentada pela demagogia e pelo medo, voltasse seus dentes contra cidadãos inteiros. Cinco anos depois da publicação, a Alemanha começaria a fazer exatamente isso em escala industrial. O autor não viveria para ver o fim. O livro permanece — não como denúncia datada, mas como manual permanente sobre o que pode acontecer quando se pede silêncio para os Etzel Andergast deste mundo.

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