O Vermelho e o Negro
Julien Sorel, filho de um serralheiro camponês, é um jovem provinciano de beleza discreta e inteligência desmedida. Ama Napoleão em segredo, num tempo em que amar Napoleão é crime político: estamos em 1830, sob a Restauração, e as carreiras abertas a um plebeu ambicioso são duas — o exército (o Vermelho da carreira militar) ou a Igreja (o Negro da batina). Julien escolhe a Igreja porque é mais rápida e porque é, para a sua geração, a única via de ascensão. Começa preceptor na casa do prefeito Rênal, seduz a esposa dele — Madame de Rênal — mais por cálculo do que por paixão. É mandado para um seminário, onde quase se afunda. Depois, secretário particular do marquês de La Mole, em Paris, seduz a filha do patrão — Mathilde de La Mole — agora por paixão mais do que por cálculo. Quando está a ponto de casar-se com Mathilde e tornar-se nobre, Madame de Rênal, pressionada por um confessor, manda ao marquês uma carta denunciando o ex-preceptor. Julien volta à província, dispara contra Madame de Rênal dentro de uma igreja. Ela não morre. Ele é condenado à morte. Aceita.
O romance, publicado em 1830, é a obra-prima de Stendhal e, segundo Nietzsche, o primeiro livro moderno. A sua modernidade está no tipo humano que ele descreve: o arrivista lúcido, que sabe o exato mecanismo do mundo em que vive e decide explorá-lo sem remorso, mas que, no meio do caminho, descobre em si capacidades de amor real que a teoria da sua ambição não previra. Julien é ao mesmo tempo frio e ardente, cínico e puro, detestável e tocante. Stendhal não o julga: descreve-o. E nisso, também, é o primeiro dos modernos.
Ler Stendhal é descobrir um prazer muito raro: a frase curta, o parágrafo enxuto, a psicologia implacável. “O romance é um espelho que se passeia ao longo de uma estrada”, escreve o autor, na abertura do capítulo XIII. É descrição precisa do método. O Vermelho e o Negro passa diante do espelho as três camadas sociais francesas do seu tempo — campesinato, alta burguesia provinciana, aristocracia parisiense — e em cada uma delas encontra mais material corrompido do que o crítico mais azedo teria imaginado. Quem leu o livro não volta a ver a sociedade do seu tempo com a mesma ingenuidade.