Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M52

Tristão e Isolda

Richard Wagner
John William Waterhouse, <em>Tristão e Isolda com o Filtro</em>, 1916 — coleção particular.
John William Waterhouse, Tristão e Isolda com o Filtro, 1916 — coleção particular.

Tristão, sobrinho do rei Marke da Cornualha, vai à Irlanda buscar, para o tio, a noiva que o rei pretende desposar: a princesa Isolda. Durante a travessia de volta, Isolda — que secretamente ama Tristão desde que ele, ferido, fora curado por ela sem saber quem era — ordena à criada Brangâna preparar um veneno mortal. As duas beberão, e morrerão juntas, porque a princesa não aceita chegar à Cornualha como esposa de outro. A criada troca o veneno por um filtro do amor. Tristão e Isolda bebem. O filtro só revela o que ambos já sentiam. Chegam ao porto amando-se fatalmente. Isolda casa-se com Marke. Tristão é surpreendido no leito dela pelo traidor Melot, que o fere de morte. No castelo de Kareol, na Bretanha, Tristão agoniza à espera de Isolda. Ela chega, mas tarde demais. Tristão morre em seus braços. Isolda, num canto final — o Liebestod —, expira sobre o corpo do amado.

A ópera, composta por Wagner entre 1857 e 1859, estreou em Munique em 1865. É, para muitos musicólogos, o livro-marco da música ocidental moderna: a partir do célebre acorde de Tristão, com a sua tensão que nunca se resolve, Wagner rompeu o sistema tonal clássico e preparou, sem o saber, o chão de Schönberg e de todo o século XX. Do ponto de vista literário, a libretação — escrita pelo próprio Wagner — é uma das mais concentradas da história do teatro lírico: três atos em que quase nada acontece externamente e em que tudo acontece por dentro dos personagens, na paixão que os consome, no desejo que não pode ser saciado senão pela morte.

Tristão e Isolda é, na realidade, uma meditação filosófica — escrita sob influência direta de Schopenhauer — sobre o fato de que o desejo, quando se torna absoluto, exige a supressão de todo mundo externo que o limite. Os amantes não querem apenas um ao outro; querem fundir-se um ao outro, o que é impossível enquanto forem corpos separados. Só a morte, portanto, permite o amor cumprido. É por isso que o título alemão da última cena — Liebestod, “morte de amor” — é conceito em si. Nenhuma outra obra operística ousou tanto. Lê-la antes de ouvi-la é a preparação que hoje, quase ninguém, tem a paciência de fazer.

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