O Senhor dos Anéis
Bilbo Bolseiro, um hobbit simplório, herdou anos antes, de uma viagem improvável, um anel. O anel, descobre-se, é o Um Anel — artefato forjado em idade esquecida pelo Senhor do Escuro, Sauron, para dominar todos os anéis de poder e, por meio deles, todos os povos da Terra-Média. Bilbo entrega-o ao sobrinho Frodo, que herda a tarefa de levá-lo à Montanha da Perdição, em Mordor, e destruí-lo no lugar em que foi forjado. O romance, publicado em três volumes entre 1954 e 1955, acompanha essa peregrinação improvável — um hobbit de pés peludos, acompanhado do amigo Sam, atravessa o continente seguido ou precedido pelos outros membros da Sociedade do Anel: o mago Gandalf, o futuro rei Aragorn, o elfo Legolas, o anão Gimli, o homem Boromir, os outros dois hobbits Pippin e Merry.
Tolkien, professor de filologia anglo-saxã em Oxford, escreveu o livro ao longo de cerca de dezesseis anos como, antes de tudo, uma obra de linguística aplicada: criou as línguas élficas do seu mundo antes do mundo em que fossem faladas, e a partir delas compôs a história. O que dali emergiu foi um romance que opera em escala mítica e que, ao mesmo tempo, consegue sustentar, página por página, a humanidade concreta das suas menores figuras. Frodo, o hobbit, é o que segura o romance: não um herói clássico, não um guerreiro poderoso, mas um ser pequeno a quem coube, por paciência e por obstinação, carregar o peso do qual todos os grandes fogem.
Há quem trate O Senhor dos Anéis como simples literatura de fuga. É engano. Tolkien escreveu o livro em reação direta ao trauma da Primeira Guerra, em que lutou na batalha do Somme, e à ascensão dos totalitarismos modernos. O Um Anel é a tentação do domínio absoluto — a que nenhuma consciência pode submeter-se sem corromper-se. A grandeza moral do romance está em reconhecer que até os mais puros cederiam ao Anel se o usassem. Só a destruição o encerra. E só um hobbit, sem ambição, é capaz de realizar essa destruição. Num século que fabricou Sauron três vezes — na Alemanha, na Rússia e, nos escombros, em todo o resto —, este livro foi e continua sendo mais necessário do que quase qualquer outro.