1984
Winston Smith, 39 anos, funcionário mediano do Ministério da Verdade, vive em Londres no ano de 1984 — ano fictício em que um regime revolucionário, o Ingsoc, governa há décadas a super-potência conhecida como Oceânia, uma das três que disputam o mundo. O Partido vigia tudo por meio das teletelas, das crianças delatoras, da Polícia do Pensamento. O Grande Irmão, cuja existência ninguém pode provar, é a figura totêmica da devoção obrigatória. Winston, em silêncio, começa a duvidar. Compra um caderno antiquíssimo e inicia um diário clandestino. Apaixona-se pela jovem Julia. Imagina, ingenuamente, que existe uma Irmandade secreta liderada pelo dissidente Emmanuel Goldstein. Será capturado, torturado, reeducado, e a última frase do livro informa que, depois de tudo, Winston ama o Grande Irmão. O romance foi publicado em 1949.
Orwell tinha lutado na Guerra Civil Espanhola e visto, de perto, o modo como os comunistas stalinistas eliminavam os outros revolucionários. A partir dessa experiência — não a partir de teoria abstrata —, escreveu este livro como advertência exata: o totalitarismo moderno não se contenta em controlar ações; quer controlar a memória, a linguagem e o pensamento. A Novilíngua, o Ministério da Verdade, o conceito de duplipensar — categorias que Orwell inventou para a sua ficção — entraram no vocabulário político de todo o mundo livre porque descreviam, com precisão horrorosa, o que acontecia nos regimes totalitários reais. E continuam descrevendo. Quem acompanha, hoje, o modo como certas palavras desaparecem do dicionário público e outras são forçadamente impostas, está assistindo a algum grau de Novilíngua.
A cena central do livro — a tortura de Winston no Ministério do Amor pelo burocrata O'Brien — é uma das páginas mais altas já escritas sobre o que significa o poder quando este não quer nada além de si mesmo. “O objetivo do poder é o poder”, diz O'Brien. “Não torturamos para extorquir confissões. Torturamos para converter. Você precisa não apenas obedecer — precisa amar.” Nenhum manual de política totalitária foi mais claro. 1984 é um livro triste. Termina sem esperança. É preciso ler com coragem, porque ele não oferece consolo. Oferece, em troca, o único presente verdadeiro do grande romance: a lucidez.