A Ilha
Trinta anos depois de Admirável Mundo Novo, Huxley escreveu a sua utopia positiva — a contraparte luminosa da distopia de 1932. O jornalista cínico Will Farnaby, cético e autodestrutivo, naufraga na costa da ilha fictícia de Pala, no oceano Índico, entre Índia e Ceilão. Pala é um reino pequeno, pobre em recursos naturais mas riquíssimo em sabedoria: a sociedade palanesa, construída ao longo de quatro gerações, integrou budismo tântrico, medicina ocidental, psicologia contemporânea, biologia evolutiva e técnicas agrícolas locais. Os habitantes vivem com serenidade real, morrem com serenidade real, educam os filhos com serenidade real. Há apenas um problema: jazidas de petróleo recém-descobertas atraem o interesse das petrolíferas, que armam com o ditador do país vizinho — o jovem Rani Dipa — a invasão que porá fim a Pala. O romance foi publicado em 1962, um ano antes da morte de Huxley.
A Ilha é um livro incomum: romance utópico num tempo em que as utopias, depois de Stálin e Hitler, eram malvistas. Huxley, porém, conseguiu escrever uma utopia sem ingenuidade. Pala não nega o sofrimento, a morte, o desejo — integra-os. Educa as crianças a olhar diretamente para a realidade em vez de fugir dela. Utiliza uma substância psicodélica, a moksha, não para embrutecer (como o soma do Admirável Mundo Novo) mas para produzir experiências místicas transformadoras — controladas, raras, pedagógicas. É talvez o único romance do século XX que pensa com a mesma seriedade tanto a utopia quanto a crítica da utopia.
No fim, Pala cai. A Standard Oil, o exército do ditador vizinho e o conformismo internacional a engolem. A última fala de um personagem palanês, agonizante, é simplesmente: “Atenção!” — o mantra que os pássaros da ilha repetiam ao visitante logo na primeira página, recordando-o de estar acordado. Huxley não deixa, portanto, ilusões baratas. A Ilha cai porque qualquer tentativa de viver com lucidez, num mundo como o nosso, é devorada por interesses maiores. Mas o livro permanece. E o leitor que o encerra sabe, por dentro, que a civilização ideal de que ele fala é mais difícil do que imaginar uma distopia — porque exige, não do romancista, mas do leitor, a disciplina que o pequeno reino pratica.