Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M48

Admirável Mundo Novo

Aldous Huxley
Aldous Huxley, fotografia de J. Dwight, julho de 1923 — Vanity Fair.
Aldous Huxley, fotografia de J. Dwight, julho de 1923 — Vanity Fair.

Londres, 632 depois de Ford. A civilização mundial é estável, próspera, eficiente. Os seres humanos não nascem mais — são decantados em garrafas, pré-condicionados em classes (Alfa, Beta, Gama, Delta, Épsilon), submetidos desde a infância a sono hipnopédico que lhes ensina a amar o próprio destino. O soma — droga oficial — substitui toda perturbação emocional por euforia controlada. A religião foi suprimida. A família foi suprimida. A literatura antiga foi suprimida. “Todos pertencem a todos” é o lema sexual. Todos são felizes. A palavra “pai” é obscena. O romance, publicado em 1932, descreve esse mundo e acompanha o que acontece quando um “Selvagem” — homem nascido à maneira antiga numa reserva indígena do Novo México — é trazido para a civilização.

Huxley foi o primeiro romancista do século XX a compreender que a tirania moderna não viria por meio da repressão mas por meio da satisfação. Nenhum Grande Irmão precisa vigiar homens entretidos. Nenhum aparato policial precisa prender cidadãos drogados. Nenhum castigo é necessário contra uma população que não sente falta da liberdade que nunca teve. O Selvagem — criado com a leitura de Shakespeare numa edição truncada — reconhece, diante do Admirável Mundo Novo, que a felicidade oferecida é indistinguível do embrutecimento. Pede o direito de ser infeliz. O Controlador Mustafá Mond responde: “Reivindicas, portanto, o direito de envelhecer, ficar feio, impotente, ter sífilis, câncer, fome, lepra.” “Sim”, responde o Selvagem. “Reivindico todas essas coisas.”

Orwell e Huxley são os dois pontos cardeais da distopia do século XX. Orwell imaginou que seríamos destruídos pelo que odiamos; Huxley imaginou que seríamos destruídos pelo que amamos. A experiência histórica mostrou que, no longo prazo, Huxley estava mais próximo do alvo. O que o presente faz todos os dias conosco — a infantilização, a automatização do entretenimento, a química da felicidade, a substituição do pensar pelo reagir — já estava escrito neste livro. Admirável Mundo Novo não é ficção; é manual de diagnóstico.

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