A Cartuxa de Parma
Fabrizio del Dongo, jovem aristocrata lombardo, corre aos dezessete anos para juntar-se a Napoleão às vésperas de Waterloo, em 1815. Participa da batalha sem saber que participa: é um dos momentos mais célebres do romance, em que Stendhal, reproduzindo a confusão real de um campo de batalha, mostra Fabrizio atravessando descampados sem conseguir distinguir os amigos dos inimigos nem o vencedor do vencido. Volta à Itália. Será envolvido, ao longo dos anos, numa teia de intrigas palacianas na pequena corte de Parma, onde a tia Gina Sanseverina luta, com a astúcia de uma Medeia esclarecida, para protegê-lo dos inimigos políticos. Fabrizio será preso na torre Farnese; seduz e é seduzido por Clélia Conti, filha do carcereiro; foge; volta; torna-se prelado; abandona todas as posições; e retira-se, no último capítulo, para uma cartuxa — silenciosa —, onde morre. O romance foi publicado em 1839.
Stendhal teria escrito A Cartuxa em cinquenta e dois dias, ditando ao secretário. A velocidade está no livro. Nada é denso; tudo é rápido, claro, irônico, ligeiro. É o oposto do romance balzaquiano, em que cada página se afunda na matéria social como chumbo. Stendhal desliza sobre o mundo como um patinador que conhece o gelo. Ainda assim — ou por isso — o que nos deixa é de uma profundidade que a lentidão balzaquiana raramente alcança: a descrição de uma alma jovem que tenta, em vão, encontrar um tamanho proporcional ao da sua paixão num mundo pequeno demais para contê-la.
Balzac, aliás, escreveu sobre A Cartuxa uma das resenhas mais generosas da história da literatura francesa: “O Sr. Beyle [Stendhal] escreveu um livro em que o sublime explode em cada capítulo, e confesso que, ao lê-lo, tive a sensação rara de que o meu próprio trabalho era ultrapassado.” Poucos escritores têm a nobreza de dizer isso publicamente. Poucos leitores têm a paciência para descobrir em Stendhal o que Balzac descobriu. A Cartuxa é um livro rápido que precisa de leitura lenta, porque a matéria dele — a política de uma cortezinha obscura, o amor de um príncipe humano, a renúncia de uma tia que ama — é o material humano em estado puro.