A Metamorfose
“Ao acordar certa manhã de sonhos inquietos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama transformado num inseto monstruoso.” Talvez não exista, na literatura ocidental, uma frase de abertura mais decisiva. A novela, publicada em 1915, apresenta sem explicação nem preâmbulo o seu problema e exige que o aceitemos como ponto de partida. Kafka não nos dirá por que Gregor virou inseto. Vai nos contar, com precisão burocrática, o que acontece a partir dali, nas paredes do quarto em que o caixeiro-viajante se descobre preso ao próprio corpo, e nas dos cômodos vizinhos, em que a família — pai, mãe, irmã — precisa aprender a conviver com o que o filho se tornou.
Lê-se geralmente A Metamorfose como metáfora da alienação, do capitalismo, do absurdo. Todas essas leituras dizem algo; todas dizem menos do que a novela diz. Gregor Samsa, convertido em inseto, continua sendo Gregor Samsa: preocupado em chegar ao trabalho, em pagar as dívidas do pai, em sustentar os estudos da irmã. É o corpo que mudou. A consciência permanece humana — e é exatamente por isso que a degradação é insuportável. O leitor acompanha a lenta descoberta da família de que o monstro no quarto pertence a ela, e a lenta descoberta de Gregor de que, para que a família sobreviva, ele precisa deixar de existir.
Kafka não está fazendo pessimismo literário. Está fazendo uma observação exata sobre as condições em que se forma o afeto humano. Enquanto Gregor era útil, foi amado pela utilidade. Quando deixou de ser útil, a paciência que lhe concedem é o último vestígio de uma afeição que já não tem objeto. A morte dele, ao amanhecer da primavera, liberta a família para recomeçar sem ele. A Metamorfose é a mais enxuta das parábolas sobre o que temos medo de descobrir: que fomos amados menos do que imaginávamos, e durante menos tempo do que precisávamos.