O Processo
“Alguém devia ter caluniado Josef K., pois uma manhã, sem que houvesse feito algo de mal, foi preso.” Começa assim, em 1914, o mais kafkiano dos romances de Kafka. Josef K., trinta anos, bancário respeitável, é acordado em sua pensão por dois homens que o informam: ele está preso. Não dizem por quê. Dizem só que o processo correrá. Nos meses seguintes, Josef K. tentará, em vão, descobrir do que é acusado, em que tribunal, por qual lei. O tribunal parece existir em toda parte e em parte alguma. Seus juízes se reúnem em sótãos empoeirados, nos fundos de cortiços. Suas regras, se existem, ninguém as explica. Tudo se move, lento e inexorável. Um ano depois, numa pedreira aos arredores da cidade, Josef K. é executado por dois homens sem rosto. “Como um cachorro!”, pensa o condenado. E é esse o seu último pensamento.
Lê-se com frequência o romance como sátira da burocracia moderna, como alegoria do totalitarismo, como fábula existencialista. Cada leitura tem seu fundamento; nenhuma esgota o livro. Porque o que Kafka faz, com uma precisão jurídica admirável — e é preciso lembrar que o próprio Kafka era advogado de seguros —, é mostrar um homem moderno diante do que a tradição cristã chamaria de juízo, despojado da tradição que ainda lhe daria sentido. Josef K. não consegue dizer que é inocente, nem consegue dizer que é culpado. A categoria da culpa funciona num tribunal cujo juiz está ausente, e num tribunal desses qualquer defesa é automaticamente confissão.
A parábola do porteiro da Lei, contada a Josef K. por um sacerdote na catedral, é um dos pontos mais altos da literatura do século XX. Um homem do campo vem à porta da Lei. O porteiro não o deixa entrar, mas também não lhe nega a entrada definitiva. O homem espera anos, décadas, uma vida inteira. No último instante, pergunta por que ninguém mais tentou entrar por aquela porta. O porteiro responde: “Esta porta foi feita para ti. Agora vou fechá-la.” É impossível ler essa parábola e continuar o mesmo.