Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M29

Esperando Godot

Samuel Beckett
Montagem de <em>Esperando Godot</em> no Festival de Avignon, 1978 — dois vagabundos sob uma árvore nua.
Montagem de Esperando Godot no Festival de Avignon, 1978 — dois vagabundos sob uma árvore nua.

Numa estrada de campo, ao pé de uma árvore nua, dois homens — Vladimir e Estragon — esperam alguém chamado Godot. Não sabem quando Godot chegará, não sabem se já se encontraram antes com ele, não sabem com certeza se combinaram esse encontro para hoje. Conversam para passar o tempo. Entram em cena, por breves instantes, um tirano grotesco, Pozzo, e o seu servo Lucky, amarrado pelo pescoço a uma corda. Depois saem. Um menino chega e anuncia que Godot não virá hoje, mas virá amanhã. A noite cai. O segundo ato é quase idêntico ao primeiro. Godot não chega. Vladimir e Estragon dizem “vamos embora” — e não se movem. É o fim.

Estreada em 1953, Esperando Godot é a peça fundadora do chamado teatro do absurdo. Mas a palavra “absurdo” é pequena. O que Beckett encena é a condição humana quando as antigas narrativas — a religiosa, a política, a romântica — perderam a evidência cultural sem, contudo, terem sido substituídas. Os dois vagabundos esperam. Não perderam a esperança: ela é a única coisa que têm. Tampouco a realizam: seria o fim da espera. Oscilam entre o absurdo e a ternura, entre a brincadeira tola e a lucidez filosófica. “Nada a fazer”, diz Estragon na primeira fala. É a frase-mola da peça.

Muitos leitores modernos viram em Godot uma metáfora de Deus. Beckett sempre recusou essa leitura — e tinha razão em recusá-la. Godot não é Deus; Godot é o nome daquilo que toda vida humana espera e que, por não chegar, a obriga a preencher o vazio com palavras. O que a peça mostra, com a precisão de um relógio cronometrista, é o modo como dois homens que nada têm continuam humanos — oferecendo-se um ao outro a companhia, a preocupação, a botina que aperta, a cenoura compartilhada. Beckett, pessimista declarado, acabou escrevendo a mais discreta das parábolas sobre a amizade como única ação possível quando o resto das ações desistiu.

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