Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M30

O Pato Selvagem

Henrik Ibsen
Christian Krohg, <em>Henrik Ibsen na rua Karl Johan</em>, c. 1895 — Arquivo Nacional Norueguês.
Christian Krohg, Henrik Ibsen na rua Karl Johan, c. 1895 — Arquivo Nacional Norueguês.

Na casa da família Ekdal, modestamente sustentada pelo filho Hjalmar — fotógrafo mediano casado com a terna Gina e pai da menina Hedvig —, vive um segredo: o próprio Hjalmar não sabe que sua filha é, na verdade, filha do velho rico Werle, antigo empregador de Gina. A mãe calou-se, o marido nunca desconfiou, a criança cresceu querida. No sótão da casa, Hjalmar e Hedvig mantêm, por brincadeira, uma arca de Noé em miniatura: coelhos, galinhas, pombos, e, no centro de tudo, um pato selvagem ferido, resgatado por Werle numa caçada. A família vive mais ou menos feliz, até que Gregers, filho idealista do mesmo Werle, em visita à casa, decide, em nome da “pura verdade”, revelar o segredo a Hjalmar.

Estreada em 1884, a peça é, talvez, a obra mais sutil de Ibsen — e certamente a mais cruel com as simplificações morais. Gregers é um idealista; age em nome da verdade. Mas o efeito da sua verdade, uma vez injetada na casa de gente simples, é o colapso. Hjalmar, que era medíocre mas feliz, descobre-se traído, humilhado, e, pior, descobre-se incapaz de perdoar. A menina Hedvig, sentindo-se rejeitada pelo pai que acaba de saber não ser seu pai, pega a arma que antes servia ao pato e mata-se. O pato permanece vivo no sótão. A moral da peça, se há uma, é dita por um personagem lateral, o dr. Relling: “Se você tira do homem médio a sua ilusão vital, tira-lhe a felicidade no mesmo golpe.”

Ibsen havia escrito antes peças contra as mentiras sociais. Em O Pato Selvagem, ele retorna ao tema pelo avesso: mostra que há mentiras sem as quais certos homens não sobrevivem. Não está elogiando a mentira; está advertindo contra o fanatismo da verdade. A peça é uma autocrítica do próprio teatro de Ibsen — e, por essa via, uma crítica ao puritanismo moral em todos os seus disfarces, religiosos ou laicos. Quem a lê descobre, com desconforto, que a verdade não é sempre o melhor presente que se pode oferecer ao próximo; que, em algumas mãos, ela se torna arma. Não é pouco, para uma peça de quatro atos.

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