Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M27

Tartufo

Molière
Pierre Brissart, gravura de <em>Tartufo</em>, edição de 1682 — cena da peça de Molière.
Pierre Brissart, gravura de Tartufo, edição de 1682 — cena da peça de Molière.

Orgon, pai de família burguês de bom coração e inteligência medíocre, traz para casa um tal Tartufo — suposto homem de Deus, que passa os dias em jejuns, devoções e exercícios espirituais, e que rapidamente conquista a admiração cega do anfitrião. Todo o restante da família — a esposa Elmira, o filho Damis, a filha Mariana, o cunhado Cleanto, a criada Dorine — percebe imediatamente que Tartufo é um charlatão que usa a devoção como disfarce para tirar partido da casa, do patrimônio e, se puder, da jovem esposa do protetor. Durante cinco atos tentam, em vão, abrir os olhos de Orgon. Tartufo manobra, insinua, chantageia, e quase consegue se apossar de tudo. A peça, de 1664, só foi liberada pelo rei em 1669, após cinco anos de proibição e duas reescrituras.

Molière não está atacando a religião — como os devotos da sua época acusaram. Está atacando o uso instrumental da religião. Tartufo não é um crente má-formado: é um impostor que escolheu o hábito eclesiástico como instrumento de picardia, porque é o único uniforme que ninguém ousa investigar. É por isso que a peça foi tão odiada pelos devotos verdadeiros — e, mais ainda, pelos devotos que não eram inteiramente verdadeiros. A arma retórica de Tartufo é simples, e é a arma de todos os hipócritas religiosos de todas as épocas: abaixa os olhos, aumenta a voz, invoca a humildade com altivez e transforma toda crítica num ataque à fé.

O final da peça, em que o rei em pessoa — pelo artifício de um mandado — desmascara o vigarista, foi visto por muitos como concessão cortesã de Molière ao Luís XIV. Talvez seja. Mas é também, vista de outro ângulo, uma confissão cruel: no mundo da peça, só um poder superior, descendo de fora, consegue reparar o estrago feito pelo devoto falso. Dentro da família, ninguém conseguira. A hipocrisia religiosa, Molière sugere, ganha sempre que disputa em terreno privado. Três séculos e meio depois, qualquer jornalista atento consegue fornecer ao espectador exemplos diários do que a peça denuncia. Não envelheceu uma linha.

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