Os Demônios
Uma pequena cidade russa, nos anos 1870, torna-se o palco de uma conspiração revolucionária. Um grupo de jovens idealistas, liderado pelo frio e calculista Piotr Verkhovênski, planeja incendiar o país em nome de uma ideia que nenhum deles entende inteiramente. No meio deles se move Nikolái Stavróguin — o personagem mais inquietante de toda a obra de Dostoiévski —, nobre talentoso, belo, carismático, e, por dentro, inteiramente oco. O romance, publicado entre 1871 e 1872, reconstrói o assassinato real de um jovem estudante por um grupo nihilista, ocorrido em 1869, e transforma-o numa parábola profética sobre o que aconteceria meio século depois, quando a mesma doutrina, escalada, engolfaria a Rússia inteira.
Dostoiévski chama o livro de Os Demônios porque sua epígrafe é o episódio evangélico em que Jesus expulsa os demônios de um endemoninhado para uma vara de porcos, que se atira num precipício. Para o autor, a Rússia era o homem possuído; os jovens ideólogos eram os porcos. O diagnóstico é duro: revoluções não nascem da miséria, nascem de cabeças intoxicadas por ideias abstratas incapazes de contato com a realidade. E quem paga a conta não são os intelectuais de sala de estar — são os simples, os fiéis, os crentes no chão.
Nenhum outro romance do século XIX formulou com tanta clareza o que estava por vir. Quem leu Os Demônios antes de 1917 sabia o que estava por acontecer. Quem só os leu depois, compreendeu o que acontecera. Stálin, Pol Pot, Mao — cada um deles é, a seu modo, uma nota de rodapé a este livro. O drama de Stavróguin — a incapacidade moral de acreditar em qualquer coisa, nem mesmo no próprio cinismo — é a psicopatologia do ideólogo moderno. Dostoiévski o diagnosticou antes que Freud nomeasse seus sintomas.