O Idiota
O príncipe Liev Míchkin, jovem de família nobre empobrecida, volta a Petersburgo após anos de tratamento num sanatório suíço, onde esteve internado por epilepsia. É manso, honesto, crédulo — e, num mundo movido por dinheiro, intriga e vaidade, imediatamente confundido com idiota. O romance, publicado em 1869, acompanha a tentativa do príncipe de viver, no meio da sociedade que encontra, uma bondade que ninguém em volta consegue interpretar como outra coisa senão ingenuidade, estupidez ou astúcia disfarçada.
O plano inicial de Dostoiévski, confessado em cartas, era ambicioso a ponto de beirar a heresia: escrever um romance cujo protagonista fosse “um homem verdadeiramente belo”, no sentido moral da expressão. Míchkin é uma tentativa de encenar, na Rússia do século XIX, alguém cuja alma retenha o radicalismo evangélico: perdoa a noiva caluniada, ama a mulher caída, estende a mão ao rival, recusa-se a julgar mesmo quando teria razão para fazê-lo. E tudo isso não salva ninguém. Nastácia Filíppovna, a mulher cujo caminho ele tenta redimir, é assassinada. Míchkin, confrontado com o crime, desmorona e volta, em silêncio definitivo, ao sanatório suíço.
Nenhum outro romance do século tem essa coragem: mostrar que, no mundo como está, a santidade não basta, porque o mundo não tem ouvidos para ela. Míchkin é derrotado — não pela fraqueza, mas pela lucidez dos outros, que não conseguem crer que alguém possa ser bom sem segunda intenção. O livro é uma das leituras mais dolorosas que a literatura ocidental oferece. Dostoiévski não está dizendo que o Bem não existe. Está dizendo que o Bem, entre homens como nós, é quase sempre incompreendido — e, exatamente por isso, infinitamente mais precioso.