Os Irmãos Karamázov
É o último e o maior romance de Dostoiévski, publicado em 1880, poucos meses antes da sua morte. Três irmãos — Dmitri, o soldado apaixonado; Ivan, o intelectual ateu; Aliócha, o noviço — compõem, cada um à sua maneira, uma resposta ao problema do pai. Fiódor Karamázov, pai de todos, é um velho libertino, grosseiro e ganancioso, que ninguém ama e que, em certa noite, é assassinado a golpes no próprio quarto. Um dos filhos precisa ter sido o autor. Durante mil páginas, Dostoiévski nos obriga a descobrir quem — e, mais do que isso, quem é cada um desses filhos diante da possibilidade de ter sido capaz daquele crime.
O coração do livro não está, porém, no enredo policial. Está nas longas conversas em que Ivan desdobra para Aliócha a sua recusa de Deus. É ali que aparece o célebre capítulo “O Grande Inquisidor”: Cristo volta à Sevilha da Inquisição e é preso pelo cardeal que prefere governar os homens com pão, mistério e autoridade do que deixá-los suportar o peso da liberdade. Nenhuma página da literatura moderna é mais densa. Ivan formula ali a mais violenta objeção à fé — e, ao formulá-la, acaba iluminando o que Aliócha representa: a única fé que resiste é a fé que conhece e absorve a objeção, não a que a ignora.
Os Irmãos Karamázov é um romance sobre a responsabilidade. Todos os irmãos, em algum sentido, quiseram a morte do pai; um deles a executou. Dostoiévski não está fazendo teologia abstrata: está mostrando que o mal tem distribuição — não há consciência inocente. E está mostrando também que o amor concreto, costumeiro, sem retórica, é mais forte do que o mal compartilhado. Nenhum livro escrito depois deste o superou na tarefa de dizer, simultaneamente, o pior que cabe no homem e o melhor que, apesar de tudo, sobrevive dentro dele.