Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M14

Crime e Castigo

Fiódor Dostoiévski
Vasili Perov, <em>Retrato de F. M. Dostoiévski</em>, 1872 — Galeria Tretiakov, Moscou.
Vasili Perov, Retrato de F. M. Dostoiévski, 1872 — Galeria Tretiakov, Moscou.

São Petersburgo, verão. Um estudante pobre, Raskólnikov, rumina por semanas uma teoria: os homens extraordinários — os Napoleões da história — têm o direito de transgredir a lei comum em nome de fins superiores. Não são julgados pela moral do rebanho. Para testar se é um desses, Raskólnikov mata com um machado uma velha agiota sórdida e, por acidente, também a irmã dela, simplória e piedosa. Leva o dinheiro. Esconde-se. E, a partir daí, durante quinhentas páginas, Dostoiévski acompanha o que acontece na alma de um homem que cometeu um crime de laboratório e descobre, no mesmo instante, que a alma não é um laboratório.

O romance, publicado em 1866, inaugura o que chamaríamos hoje de romance psicológico. Mas a palavra “psicológico” é pequena. Raskólnikov não está doente — está convicto. Não sente remorso, sente espanto: por que o raciocínio impecável não o blindou contra a náusea, contra a febre, contra a presença insuportável do outro? Todo o livro é a deflagração lenta dessa contradição. Ao seu lado, duas figuras: Sônia, a prostituta que ainda acredita em Deus, e Svidrigáilov, o devasso que já não acredita em nada. Cada um deles é um espelho — e entre os dois Raskólnikov precisa, afinal, escolher.

Crime e Castigo não é romance policial: o leitor conhece o criminoso desde a primeira página. É um romance teológico disfarçado — e disfarçado tão bem que muitos leitores ateus o leram por um século sem notar. Dostoiévski não está defendendo a lei nem a religião. Está mostrando que o homem é mais profundo do que as suas próprias teorias, e que uma consciência só se salva quando reconhece, com humildade, aquilo que a excede. Quem sai de Crime e Castigo sem ter sido sacudido não leu — folheou.

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