Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M13

Hamlet

William Shakespeare
John Everett Millais, <em>Ofélia</em>, 1851–52 — Tate Britain, Londres.
John Everett Millais, Ofélia, 1851–52 — Tate Britain, Londres.

Um jovem príncipe recebe a visita de um fantasma. O fantasma é seu pai, o rei, assassinado. O assassino é o tio, agora no trono e na cama da rainha-mãe. Esse é o argumento. Qualquer folhetinista do século XIX teria feito disso um melodrama de vingança; Shakespeare fez disso, por volta de 1600, a tragédia mais filosófica já escrita em língua alguma. Porque, desde o instante em que o fantasma se retira e o filho promete vingança, Hamlet deixa de agir: pensa. Pensa sobre a realidade do fantasma, sobre a culpabilidade do tio, sobre a natureza da ação, sobre a morte, sobre a loucura que finge e sobre a loucura que, talvez, já não seja fingimento.

O “ser ou não ser” — tornado clichê porque muitos o repetem sem tê-lo lido — não é pergunta sobre o suicídio: é pergunta sobre a existência. Por que suportar a injustiça deste mundo, se bastaria um gesto para deixá-lo? Porque, responde o próprio Hamlet, não sabemos o que há do outro lado. Esse não-saber, que a fé medieval havia dissolvido e que a modernidade herdaria como angústia, é o solo sobre o qual toda a peça se ergue. Hamlet é o primeiro personagem europeu que se recusa a ser personagem: quer ver por dentro o teatro do mundo.

Ofélia enlouquece e morre. A rainha bebe por engano o veneno. Laertes tomba. Hamlet, finalmente tendo executado o tio, morre nos braços de Horácio. “O resto é silêncio.” Ler Hamlet é aceitar que existem problemas humanos para os quais nenhuma resposta é adequada — mas a pergunta, mesmo sem resposta, já nos salva da barbárie.

Minhas notas