Sofista
O diálogo Sofista, composto por Platão nos seus últimos anos (provavelmente entre 360 e 350 a.C.), é um dos mais técnicos da sua obra. A conversa entre Teeteto, Sócrates e um visitante estrangeiro vindo de Eleia — inominado, chamado apenas “o Estrangeiro” — propõe-se examinar uma pergunta que parece simples: o que é um sofista? Os sofistas haviam sido, durante um século, os intelectuais profissionais de Atenas — mestres ambulantes de retórica, educação e cultura geral, cobrando pesados honorários, acusados por Sócrates de ensinar a vencer em qualquer argumento, com independência da verdade. Definir o sofista é, portanto, no fundo, distinguir o verdadeiro filósofo do seu falsificador.
Para definir o sofista, o Estrangeiro propõe o método da diairesis — a “divisão” lógica, em que se subdivide progressivamente o gênero até chegar ao objeto específico. É o primeiro grande exercício de classificação taxonômica da filosofia ocidental. No caminho, porém, surge um problema de fundo, que o diálogo precisa enfrentar para poder prosseguir: se o sofista é o fabricante de “falsas aparências” e de “falsas palavras”, isso significa que há o falso. Mas, já diziam os eleatas (Parmênides em particular), o não-ser não existe — falar do falso seria falar de algo que não é. O Estrangeiro é obrigado a “parricídio”: precisa contrariar o próprio pai filosófico da escola eleata. Mostra que o não-ser, entendido não como contradição absoluta mas como alteridade, é parte do ser — ou seja, que é possível, legítimo e necessário falar de coisas que não são.
A seção ontológica do Sofista — conhecida pela tradição como “parricídio de Parmênides” — é um dos momentos mais altos da filosofia grega. Platão, ao admitir o não-ser como alteridade dentro do próprio ser, preparou o terreno para a ontologia de Aristóteles, para a teologia medieval da analogia, e, via Hegel, para grande parte da ontologia contemporânea. O leitor brasileiro tem à disposição traduções competentes (Jorge Paleikat, Carlos Alberto Nunes). Ler este diálogo é ingressar em terreno técnico — mas é também descobrir que, por trás das divisões lógicas aparentemente escolares, Platão está respondendo à pergunta mais antiga da filosofia: o que é, e como podemos falar dele.