Teeteto
Teeteto é um jovem ateniense de extraordinário talento matemático, discípulo do geômetra Teodoro de Cirene. Sócrates, encontrando-o na palestra acompanhado do mestre, inicia com ele uma conversa sobre uma questão que atravessaria toda a filosofia posterior: o que é o conhecimento? Teeteto oferece três definições sucessivas. A primeira — “conhecimento é percepção” — Sócrates refuta mostrando que os sentidos enganam e que o conhecimento dos objetos matemáticos, por exemplo, não depende da percepção. A segunda — “conhecimento é opinião verdadeira” — Sócrates refuta mostrando que uma opinião pode ser acidentalmente verdadeira, o que não a converte em saber. A terceira — “conhecimento é opinião verdadeira acompanhada de justificação” — Sócrates examina minuciosamente e, no fim, também rejeita, porque a noção de “justificação” (logos) se mostra incapaz de suportar o peso teórico que a definição lhe atribui.
O Teeteto é o diálogo aporético por excelência — termina sem conclusão, com Sócrates anunciando que precisa ir ao tribunal responder à acusação de Meleto, a mesma que o levará à morte. Mas o fracasso é aparente. Ao longo dos trezentos e cinquenta passos do diálogo, Platão terá examinado com rigor impressionante as três grandes teorias clássicas do conhecimento, e terá mostrado por que nenhuma delas, tomada isoladamente, é suficiente. Os analíticos modernos reconhecerão aqui a origem do célebre debate sobre “conhecimento como crença verdadeira justificada” e as suas complicações posteriores — o chamado problema de Gettier, no séc. XX, é, de certo modo, uma nota de rodapé a este diálogo.
O leitor que se aproxima do Teeteto pela primeira vez pode sentir-se frustrado com a ausência de conclusão. A frustração, porém, é parte da pedagogia platônica. O que Sócrates ensina, no diálogo, é que o conhecimento — a compreensão genuína do real — não é algo que se adquire por acúmulo de definições, mas sim pela prática continuada do exame crítico. A maiêutica, arte socrática do parto, aparece no Teeteto de forma explícita: Sócrates se diz “parteiro”, capaz de ajudar a alma alheia a dar à luz as suas ideias — e a distinguir as ideias vivas das natimortas. Este é, para os platônicos, o verdadeiro conhecimento.