Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M121

Crátilo

Platão
Busto de Platão, cópia romana do séc. IV a.C. — Musei Capitolini, Roma.
Busto de Platão, cópia romana do séc. IV a.C. — Musei Capitolini, Roma.

Sócrates é abordado por dois conhecidos — Crátilo e Hermógenes — que travavam uma discussão. Crátilo defende que os nomes das coisas são naturais: há uma correspondência intrínseca entre o nome e o que ele designa. Hermógenes defende o contrário: os nomes são convencionais, meros acordos entre os homens, que poderiam ser diferentes. Sócrates, chamado a arbitrar, desenvolve-se durante todo o diálogo — o Crátilo — numa análise meticulosa da linguagem: examina a origem etimológica de dezenas de palavras gregas, reconstrói a lógica interna dos nomes dos deuses, dos heróis, dos conceitos abstratos (justiça, virtude, bem), e mostra, em cada caso, como o nome parece “imitar” algo da realidade nomeada.

A tese de Crátilo parece, por largos trechos do diálogo, sair vencedora. Sócrates a sustenta com virtuosismo etimológico; o leitor, a certa altura, já supõe que vai prevalecer. Mas, na última parte, Sócrates inverte o jogo. Se os nomes são imitações, as imitações são imperfeitas — e, portanto, os nomes nunca capturam inteiramente a realidade que nomeiam. Se quisermos conhecer a realidade, não podemos parar nos nomes; temos de ir até as próprias coisas. A linguagem é útil, mas é sempre segunda em relação ao real. Crátilo, no final, sai do diálogo sem se render, mas com a firmeza abalada. Sócrates, como sempre, deixa a questão aberta.

O Crátilo é o primeiro grande tratado de filosofia da linguagem da tradição ocidental. Todos os grandes debates posteriores — medievais sobre os universais, modernos sobre o naturalismo de Herder versus o convencionalismo de Locke, contemporâneos sobre Wittgenstein e Saussure — encontram aqui a sua matriz. A intuição profunda do diálogo é que a linguagem é ao mesmo tempo indispensável e insuficiente: indispensável, porque sem ela não há pensamento articulado; insuficiente, porque sempre remete a algo que ela não esgota. Quem lê este diálogo com atenção aprende a desconfiar das palavras exatamente na medida em que passa a amar a precisão do seu uso.

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