Eutífron
Sócrates encontra Eutífron nos degraus do tribunal de Atenas. Sócrates está indo responder à acusação de ímpiedade que lhe foi movida por Meleto — a mesma acusação que, poucas semanas depois, acabaria custando-lhe a vida. Eutífron também vai ao tribunal: pretende acusar o próprio pai de homicídio. Um servo da casa de Eutífron matou um escravo; o pai o amarrou num poço até as autoridades decidirem o caso, e o servo, esquecido, morreu de sede. Eutífron, que se julga conhecedor das coisas religiosas, considera seu dever denunciar o pai. Sócrates, surpreso com a decisão, lhe propõe uma pergunta: se Eutífron está tão certo de agir piedosamente, deve saber, então, o que é a piedade. Pode defini-la?
O diálogo, brevíssimo, é inteiramente dedicado à tentativa de Eutífron de responder a essa pergunta. Define a piedade primeiro como “fazer o que estou fazendo agora — acusar o injusto”. Sócrates rejeita: isso é um exemplo, não uma definição. Eutífron tenta: “É o que agrada aos deuses.” Sócrates rejeita: os deuses gregos discordam entre si; o que agrada a um desagrada a outro. Eutífron tenta: “É o que agrada a todos os deuses.” Sócrates, então, lança a pergunta que atravessaria dois milênios de teologia e filosofia: o piedoso é amado pelos deuses porque é piedoso, ou é piedoso porque é amado pelos deuses? Eutífron não consegue responder. Foge para o tribunal.
A pergunta do Eutífron é uma das grandes perguntas da filosofia ocidental. Se o bem é bom porque Deus assim o declara, então a moralidade é arbitrária — se Deus tivesse declarado o contrário, o contrário seria bom. Se Deus declara bom aquilo que já era bom em si, então a moralidade é independente de Deus — o que parece limitá-lo. A teologia cristã medieval, sobretudo em Tomás de Aquino, tentaria responder dizendo que o bem e Deus não são duas realidades separadas: o bem é a própria natureza divina, e é por isso que Deus ama o que é bom — e o bom é o que reflete a natureza de Deus. Sócrates, no Eutífron, deixa a pergunta sem resposta. Como sempre, é mais útil o exame do que a conclusão.