Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M119

Críton

Platão
Busto de Platão, cópia romana do séc. IV a.C. — Musei Capitolini, Roma.
Busto de Platão, cópia romana do séc. IV a.C. — Musei Capitolini, Roma.

Atenas, alguns dias antes da execução de Sócrates, no ano 399 a.C. Críton, velho amigo e discípulo, chega à prisão na madrugada, antes que o mestre acorde. Traz notícia desagradável: o navio sagrado que estava em Delos retorna hoje, e a execução, adiada até o retorno dele, acontecerá no dia seguinte. Críton propõe a fuga. Tudo está preparado — os guardas foram subornados, um barco aguarda no Pireu, há cidades gregas prontas a acolher Sócrates como filósofo estimado. O diálogo, breve (menos de vinte páginas), é a resposta do filósofo condenado à proposta do amigo: Sócrates recusa fugir.

A recusa não é impulsiva. Sócrates explica, com os argumentos que vinha desenvolvendo toda a vida, por que considera que a fuga seria injusta. Em primeiro lugar, porque não se deve devolver mal por mal: se a cidade lhe fez uma injustiça ao condená-lo, ele não deve retribuir fugindo ilegalmente das leis. Em segundo, porque ele próprio, implicitamente, assinou um pacto com a cidade ao longo de setenta anos de permanência nela, beneficiando-se das suas instituições, das suas leis, da sua educação, do seu sistema de justiça; não pode agora, no momento em que esse sistema se volta contra ele, rejeitar o pacto. Sócrates imagina, numa passagem célebre, as Leis de Atenas aparecendo-lhe em pessoa e perguntando-lhe: “E agora, Sócrates, pretendes nos destruir, a nós, tuas Leis, fugindo?”

O Críton é o primeiro grande texto sobre o que hoje chamaríamos de obediência civil. Antecipa, por dois mil e quatrocentos anos, as discussões de Thoreau, Gandhi e Martin Luther King sobre os limites legítimos da resistência à autoridade. Sócrates não defende uma obediência cega — Platão mostrará, em outras obras, que o filósofo tem direito e dever de resistir a ordens injustas. Mas Sócrates defende, sim, que a fuga subreptícia, no caso concreto, seria um ato pior do que a condenação injusta que ele sofreu. Ao recusá-la, ele pratica, na própria pele, o que ensinou com a palavra: é melhor sofrer a injustiça do que cometê-la. A cicuta virá no dia seguinte. Críton sai da cela derrotado. Sócrates, não.

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