Don Juan / Giovanni
Em 1787, o libretista veneziano Lorenzo Da Ponte e o compositor salzburguês Wolfgang Amadeus Mozart compuseram, por encomenda do teatro de Praga, a ópera Don Giovanni — subtítulo ossia Il dissoluto punito, “ou o devasso punido”. O enredo é a velha lenda espanhola do libertino Don Juan, popularizada na Europa por Tirso de Molina, Molière e dezenas de outros. A inovação está em como Da Ponte e Mozart a tratam: com uma ambiguidade tonal que nenhuma das versões anteriores havia conseguido. Don Giovanni é ao mesmo tempo cômico e trágico, sedutor e monstruoso, charmoso e diabólico. Ninguém que o tenha visto em cena esquece a entrada do Comendador de pedra na festa do segundo ato — e o desfecho em que o devasso, recusando-se a arrepender-se até o último segundo, é arrastado para o inferno.
O libreto de Da Ponte é uma obra-prima de economia dramática. Em menos de três horas de ópera, caracteriza com precisão psicológica Don Giovanni (o libertino filosófico), Leporello (o criado covarde e cúmplice), Donna Anna (a nobre ofendida), Don Ottavio (o noivo honroso e tíbio), Donna Elvira (a antiga amante traída), Zerlina (a camponesa que quase sucumbe), Masetto (o noivo ciumento) e o Comendador (o patriarca morto que retorna como justiça cósmica). Cada personagem tem voz própria, cada ato tem ritmo próprio, e Mozart, sobre este texto, compôs uma das mais perfeitas partituras da história da música — alternando com desenvoltura ária cômica, recitativo dramático, dueto de amor, sexteto de exposição, concertato final.
Kierkegaard, em Ou/Ou, dedicou dezenas de páginas a esta ópera: para ele, Don Giovanni é “a expressão musical do sensual imediato” — não um personagem psicológico, mas a personificação do próprio desejo. Romanticamente, é verdade. Mas o texto de Da Ponte vai além: mostra que o puro desejo sem limites, levado às últimas consequências, acaba pagando o preço do absoluto. Mozart, já adoentado, confessava aos amigos que a cena final da ópera — em que o Comendador de pedra pede ao devasso que se converta — o assombrava. Era, em 1787, o que ele próprio precisaria enfrentar quatro anos depois. Don Giovanni é, para muitos musicólogos, a ópera mais perfeita já composta. Para os filósofos, é um dos poucos dramas musicais em que a música carrega o peso do conceito. Para o ouvinte comum, é a prova de que o século XVIII entendeu da alma humana tanto quanto os nossos Dostoiévskis o entenderiam, cem anos depois.