Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M124

Político

Platão
Busto de Platão, cópia romana do séc. IV a.C. — Musei Capitolini, Roma.
Busto de Platão, cópia romana do séc. IV a.C. — Musei Capitolini, Roma.

Continuação direta do Sofista, o diálogo Político — cujo título grego, Politikos, deveria ser traduzido mais exatamente por “O Estadista” — retoma a mesma personagem, o Estrangeiro de Eleia, desta vez em conversa com o jovem Sócrates (homônimo do filósofo que está em silêncio). A tarefa é definir o político. O método é novamente a diairesis — a divisão lógica progressiva. O Estrangeiro começa identificando a ciência política como uma forma do saber prático, distinto do saber teórico; depois, dentro do prático, distingue a ciência que governa homens da que governa coisas; depois, dentro da que governa homens, a que os governa por convenção, e assim por diante. Cada divisão é feita com a precisão quase maníaca do método.

No meio do caminho, porém, o Estrangeiro interrompe a divisão com um mito — o célebre “mito do pastor divino”. Houve um tempo, ele conta, em que os próprios deuses pastoreavam diretamente os homens, sem necessidade de reis humanos. Então ocorreu uma reviravolta cósmica: os deuses se retiraram, o cosmos passou a girar em sentido contrário, e os homens tiveram de aprender, sozinhos, a governar-se. A condição humana presente é, portanto, a de seres que perderam o pastor e foram entregues a si mesmos. O político humano deve tentar imitar, imperfeitamente, o pastor divino ausente. Nenhuma constituição empírica, portanto, é plenamente legítima — todas são, no máximo, aproximações.

A partir daí, o Político classifica as constituições em seis, adiantando a distinção que Aristóteles tornaria canônica: monarquia e tirania, aristocracia e oligarquia, democracia boa e democracia má. O diálogo termina definindo a arte política como a “arte real da tecedura” — aquela que sabe combinar, em proporções adequadas, os dois tipos humanos opostos (os corajosos e os prudentes) para formar uma sociedade estável. É um dos mais ricos textos de filosofia política do corpus platônico, e, embora menos lido do que a República, é indispensável para entender o pensamento político do Platão maduro. O leitor que percorre Sofista e Político em sequência descobre, com espanto, que o método aparentemente frio das divisões carrega o mesmo calor de busca que atravessa todos os diálogos do mestre.

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