Brasil Sem Medo - Paulo Briguet estará hoje na Livraria Cultura, em São  Paulo, para lançar seu novo livroPor Paulo Briguet

José Monir Nasser costumava dizer que nós não explicamos os clássicos; eles é que nos explicam. Da mesma forma, podemos afirmar que qualquer tentativa de explicar o trabalho do professor Monir resultará em fracasso, pois toda explicação possível advém do próprio trabalho. É preciso dizer de uma vez por todas: ele é o professor e nós somos os alunos.

 
Aristóteles discordou de seu mestre Platão em muitas coisas, mas certa vez declarou: “Platão é tão grande que o homem mau não tem sequer o direito de elogiá-lo”. Quem somos nós para elogiar ou explicar o mestre Monir? Ninguém. No entanto, tentaremos fazê-lo, do modo mais sucinto possível, para não tomar o tempo precioso do leitor.

Os textos reunidos nesta série são transcrições de aulas de José Monir Nasser sobre clássicos da literatura universal, no programa Expedições pelo Mundo da Cultura, que funcionou entre 2006 e 2010. O objetivo era trazer para o conhecimento do público os temas que ocupavam o espírito dos grandes autores. São nomes e histórias que estão muitas vezes presentes na vida e na linguagem cotidiana – vide os adjetivos homérico, dantesco, quixotesco, kafkiano –, mas que, em geral, ficam adormecidos na poeira das estantes. A missão de Monir era trazer esses enredos e personagens clássicos para a luz do dia.
 
O foco das palestras de Monir não era a crítica literária ou a análise estilística, mas sim a discussão do conteúdo. Ele possuía uma verdadeira e sagrada obsessão por esclarecer mesmo as passagens mais difíceis das obras discutidas. Seu lema, repetido diversas vezes, era: “É proibido não entender!” Todos ficavam à vontade para interromper sua fala com perguntas, reflexões, ponderações, comentários. O objetivo não era transformar os alunos em eruditos, mas dar acesso a um conhecimento valioso, universal e atemporal, que pode fazer toda diferença na vida das pessoas. E fez. Monir pretendia fazer a leitura de 100 livros clássicos da literatura universal.
Não foi possível: ele discutiu “apenas” 92. A lista inicial dos clássicos partiu da obra Como ler um livro, de Mortimer Adler, Charles Van Doren e foi sendo aperfeiçoada ao longo do tempo. Na presente seleção há dez obras: Gênesis e Jó (textos bíblicos), Fédon (de Platão), Os Lusíadas (de Camões), O Mercador de Veneza (de Shakespeare), O Inspetor Geral (de Gógol), A Morte de Ivan Ilitch (de Tolstói), Moby Dick (de Melville), O Senhor dos Anéis (de Tolkien) e Admirável Mundo Novo (de A. Huxley).

A ideia de trabalhar com os clássicos já havia sido colocada em prática por Monir e o filósofo Olavo de Carvalho, em um curso que ambos ministraram na Associação Comercial de Curitiba, patrocinado pelo IPD (Instituto Paraná de Desenvolvimento). O programa Expedições pelo Mundo da Cultura nasceu em 2006 e já no primeiro ano passou a contar com a parceria do SESI. De Curitiba, onde foram realizadas as primeiras aulas, o programa foi estendido a outras cidades paranaenses: Paranavaí, Londrina, Maringá, Toledo e Ponta Grossa. O programa também foi realizado em São Paulo a partir de 2007, desvinculado do SESI.

Em todas essas cidades, Monir fez alunos e amigos. Porque era quase impossível ouvi-lo sem considerar a sua maestria e o seu amor ao próximo. Os encontros duravam cerca de quatro horas, com um intervalo para café. Monir começava as palestras com uma apresentação genérica sobre o autor e a obra. Em seguida, havia a leitura de um resumo do livro, entremeado por observações de Monir. Esses comentários formavam um rio de ouro que conduzia o aluno pelas maravilhas da literatura universal. Às quatro horas passavam com uma rapidez quase milagrosa – e você tem em mãos a oportunidade de comprovar essa afirmação.

Não bastassem a fluidez e a sutileza de suas observações, José Monir Nasser conseguia enriquecê-las com um fino senso de humor, livre de qualquer pedantismo ou arrogância. Ao final das aulas, nota-se um inusitado clima de emoção entre os presentes. Algumas vezes, ao concluir seus pensamentos sobre a mensagem dos clássicos, Monir chegava às lágrimas, como testemunharam alguns de seus alunos e amigos.

Em cada cidade por onde Monir levou os clássicos, espalhou também as sementes do conhecimento, da cultura e dos valores eternos. Ele era um autêntico líder de primeira casta, um homem cujo sentido da vida era fazer o bem e elevar o espírito de seus semelhantes. Muito mais do que explicá-lo, cumpre agora ouvir a sua voz – nas páginas seguintes. Jamais encontrei o professor Monir pessoalmente; mas, após ouvir as gravações e ler as transcrições de suas aulas, posso considerar-me, talvez, um aluno, um amigo, um leitor. Conheça você também o mestre Monir.

Paulo Briguet é jornalista e escritor.