A palavra educar deriva do latim ex ducare, literalmente, conduzir para fora. Originalmente, significa retirar o sujeito de dentro da jaula do ego e apresentarlhe o vasto mundo das possibilidades humanas, que se abre para além do seu umbigo. A imagem do verdadeiro educador está simbolizada de maneira definitiva em Virgílio, o poeta que na Divina Comédia retira Dante de dentro de sua floresta escura e o guia até as portas do Paraíso. E não me ocorre imagem melhor para descrever a vocação e o trabalho do economista e escritor José Monir Nasser.

O professor Monir, como seus alunos costumam chamá-lo, é um homem de muitos interesses, como aqueles antigos e quase extintos humanistas, que se dedicavam a diversos campos do saber e do fazer humanos. Os assuntos que ele discute vão do agronegócio à metafísica, do desenvolvimento econômico ao esoterismo islâmico, de pintores curitibanos aos filósofos gregos, da situação política brasileira à literatura ocidental. Como os antigos, que dominavam as artes liberais da palavra e do número, o professor Monir se formou em Letras e Economia, duas áreas aparentemente divorciadas entre si, mas que encontraram uma síntese perfeita na sua carreira como economista, consultor, palestrante, escritor, editor, pintor, crítico literário, pesquisador de religiões comparadas, entre outras coisas. A vocação pedagógica, porém, sempre foi denominador comum de todas as suas atividades.

A vida de José Monir Nasser pode ser dividida em três fases: a do economista; a do consultor; e a atual, a do “homem dedicado às coisas da cultura”. Em quatro, talvez, se contarmos a etapa da sua formação intelectual, na qual fora levado ao Paraíso da alta cultura por outro Virgílio, seu mestre, o irmão marista Virgílio Balestro. Essas três fases, de uma forma ou de outra, carregam a marca do guia de homens, do educador nato.

José Monir Nasser é economista, escritor, consultor econômico e desempenha várias outras atividades ligadas a cultura e à educação liberal. Dentre outras coisas, é o idealizador do projeto Expedições pelo Mundo da Cultura - realizado em três cidades do Paraná,Curitiba, Londrina e Paranavaí, e em São Paulo – e o fundador da Triade Editora.

O professor Monir, como é conhecido entre seus alunos, concedeu uma entrevista ao Aristoi, falando sobre sua formação intelectual, sua vida profissional e seus projetos educacionais diversos. Como ele tem sido um incansável e importante divulgador da educação liberal em nosso país, acreditamos que nossos leitores gostarão de conhecer melhor seu trabalho.


Em primeiro lugar, gostaríamos que contasse um pouco aos nossos leitores sobre sua formação e como entrou em contato com a educação liberal.


Eu fui um aluno de educação liberal quando eu tinha entre 15 e 18 anos. Eu e meu amigo Henrique Elfes, quando estudávamos no Colégio Marista, em Curitiba, tivemos a sorte de ter um professor chamado Irmão Virgílio Balestro, que era um educador no sentido da educação liberal. Dos 15 aos 18 anos ao invés de ter férias, nós ficávamos estudando com o irmão Balestro. Com ele fizemos inúmeros trabalhos: lemos Os Lusíadas, os Sermões do Padre Vieira, fizemos uma pequena pesquisa filológica e inúmeras outras coisas. Quando terminei o ensino médio, eu tinha passado por uma experiência similar, guardada as devidas proporções, daquela por que passam os alunos americanos nas grandes escolas preparatórias para a universidade. Nos EUA ainda sobraram 200 instituições de educação liberal, que não são High Schools, mas escolas preparatórias (leiam Peter Cookson Jr., Preparing for Power). A primeira coisa, portanto a deixar claro é que dentro dos moldes que o Irmão Balestro foi capaz de conceber, eu fui um aluno de educação liberal, antes dos 18 anos.
Além disso, no colégio, eu era editor de um jornal cultural chamado A Formiga. Eu tinha uns 15 ou 16 anos e me metia a fazer crítica de teatro, de cinema e coisas assim. Claro que eram todas umas porcarias, mas já era um sintoma de que minha vida acabaria tendendo para esse tipo de assunto.
Quando fui para a universidade, estudei, em primeiro lugar, filosofia, mas não terminei o curso por várias razões, sobretudo porque os horários eram infernais, e acabei cursando economia e letras. Contudo, por conta daquela minha formação na educação liberal, eu não consegui me desvincular de assuntos culturais.

José Monir Nasser.
"Uma sociedade não se constitui por acordo de vontades. Ao contrário, todo acordo de vontades pressupõe a existência de uma sociedade, de pessoas que convivem, e o acordo só pode consistir em definir uma ou outra forma dessa convivência, dessa sociedade pré-existente... . Querer que o direito reja as relações entre seres que não vivem previamente em efetiva sociedade parece-me uma idéia bastante confusa e ridícula do que é o direito".
José Ortega Y Gasset
(em "A Rebelião das Massas")

Empreendedorismo Cívico é a arte de se produzir capital social ou, em outras palavras, uma sociedade bem sucedida. Uma sociedade é, antes de mais nada, uma rede invisível de identidades entre seus membros, sob forma de valores, costumes, usos, opiniões, visões de mundo. Uma sociedade é uma comunidade, no sentido de compartilhar coisas comuns. Pode compartilhar um destino, um determinado mito fundador ou uma profecia escatológica. E a este compartilhamento chamamos cívico. O estado, as relações jurídicas, o mundo civil vêm depois. Em qualquer sociedade há um poder mesmo antes de haver um governo.
O conceito nuclear de qualquer comunidade é interatividade, na medida em que é esta que forma aquela. Para haver sociedade (ou comunidade) basta que haja convivência. Diz Ortega Y Gasset: "Sociedade é o que se produz automaticamente pelo simples fato da convivência". Quando uma corrente elétrica atravessa um condutor, forma-se em torno dele um campo magnético. Não o vemos, mas podemos medir suas dimensões e sentir seus efeitos. Analogamente, quando pessoas interagem, forma-se em torno delas uma sociedade, um ambiente social, a partir do qual podem ser construídas relações de direito.

(à procura do empreendedorismo cívico) - José Monir Nasser

“Em toda sociedade existem quatro castas, das quais a primeira se incumbe do guiamento espiritual, moral e intelectual, a segunda do poder político e militar, a terceira da organização da atividade econômica, a quarta dos trabalhos auxiliares e braçais”.
Olavo de Carvalho

1. O filósofo Olavo de Carvalho nos ensina que o conceito de casta, diferentemente do conceito de classe, que é unidimensionalmente econômico, abrange um conjunto de dimensões que, juntas, influenciam a ação humana. O conceito de casta, sendo amplo e complexo, pode, por conseguinte, aplicar-se a qualquer agrupamento humano, até mesmo às próprias classes econômicas. No sentido que lhe dá Olavo de Carvalho, cada casta reflete uma determinada visão do mundo, uma determinada escala de valores que distingue os homens, a despeito de sua raça, de seu sexo, sua posição social ou econômica. E há quatro esferas de ação humana, logo apenas quatro castas.

Por Paulo Briguet 

“Uma sociedade não pode ser rica antes de ser inteligente. Não pode existir uma economia realmente sólida e desenvolvida sem que haja uma elite cultural voltada para os bens espirituais, capaz de guiar, julgar e interpretar os esforços da comunidade”.

Minha dentista, também uma querida amiga, perguntou-me: “Paulo, como é viver na orfandade?” Respondi que é difícil: dói. Penso em meus pais todos os dias, para não dizer todas as horas. Mas, no momento em que a dra. Suely fez essa pergunta, pensei em José Monir Nasser. O professor Monir, como todos o chamavam, morreu no dia 16 de março, aos 56 anos, em Curitiba.

Monir foi o pai intelectual de um sem-número de pessoas. Empresários, estudantes, professores, economistas, profissionais liberais, presidentes de entidades, jornalistas – todos se tornavam alunos diante dele. Era um educador no sentido verdadeiro da palavra, se pensarmos que a palavra educar vem do latim ex ducare, conduzir para fora. Suas aulas sobre literatura, filosofia e desenvolvimento econômico literalmente conduziam os ouvintes para fora da caverna da ignorância, mostrando-lhes a luz pura e espiritual do conhecimento. Luz que emanava dos grandes clássicos: Aristóteles, Platão, Santo Agostinho, Boécio, Dante, Shakespeare, Dostoievski, Kafka, Chesterton.