Confissões
Entre 397 e 400 d.C., o já bispo de Hipona, Aurélio Agostinho, compôs o livro que funda o gênero da autobiografia espiritual na tradição ocidental. Dividiu-o em treze livros. Os nove primeiros contam a sua vida — infância em Tagaste, estudos em Cartago, o roubo das peras, a concubina amada e dispensada, o amigo morto, o filho Adeodato, o maniqueísmo de nove anos, o encontro com Ambrósio em Milão, a cena decisiva no jardim em que, chorando, escutou a voz infantil que dizia tolle, lege — pega e lê —, abriu a carta de Paulo aos Romanos e, com os olhos sobre as palavras que caíram a seu encontro, converteu-se. Os quatro livros finais são meditações filosóficas: sobre a memória, o tempo, o início do Gênesis. Tudo é dirigido a Deus em forma de oração.
As Confissões inauguram uma forma literária nova. Antes de Agostinho, nenhum autor da Antiguidade havia escrito a história interior da própria alma com esta minúcia. Sêneca confessa defeitos; Marco Aurélio anota sentenças; Agostinho faz a autópsia do desejo humano. Cada episódio — o roubo infantil, a tristeza excessiva pela morte do amigo, a postergação da castidade — é examinado para mostrar como a liberdade humana, antes da graça, é escrava do hábito; e como a graça, ao libertá-la, não a aniquila. Rousseau, mil e trezentos anos depois, intitularia seu livro Les Confessions e faria das suas uma paródia laica do original. A diferença entre os dois livros é a diferença entre um homem que confessa ao Deus que o ama e um homem que confessa ao público que espera.
O livro XI das Confissões, sobre o tempo, é a mais alta meditação filosófica que a Antiguidade tardia nos deixou sobre este tema. “Se ninguém me pergunta, eu sei o que é o tempo. Se me perguntam, já não sei.” Esta frase inaugura uma longa análise sobre o modo como passado, presente e futuro só existem na alma que recorda, atende e espera. Husserl, Heidegger e toda a fenomenologia do século XX partirão daqui. Quem lê as Confissões tem, ao mesmo tempo, um livro de espiritualidade concreta, uma biografia impressionante e um dos mais belos tratados sobre a estrutura íntima do tempo humano. Poucos livros oferecem três monumentos num só.