Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M87

República de Platão

Platão
Rafael, <em>A Escola de Atenas</em>, 1509–11 — Platão, ao centro, aponta para o alto; Aristóteles, para o chão. Vaticano.
Rafael, A Escola de Atenas, 1509–11 — Platão, ao centro, aponta para o alto; Aristóteles, para o chão. Vaticano.

Pireu, porto de Atenas, noite de festival da deusa Bendis. Sócrates, acompanhado de Glauco e Adimanto — irmãos mais velhos de Platão —, é convencido por amigos a ficar para uma conversa que, a princípio, será sobre a vida do velho Céfalo, rica e tranquila. Céfalo define a justiça como pagar o que se deve. Sócrates objeta. Polemarco modifica. Sócrates objeta. Trasímaco intervém: “A justiça é a vontade do mais forte.” Sócrates o refuta. Os dois irmãos, insatisfeitos com a refutação, desafiam-no: e se fosse possível demonstrar, sem recurso ao castigo divino ou às sanções legais, que a justiça é preferível à injustiça pelo bem que ela traz à alma do justo? Sócrates aceita o desafio. O diálogo se estende por dez livros e converte-se, no curso do debate, no exame mais ambicioso da tradição clássica sobre o que é uma alma, o que é uma cidade, o que é o bem.

A República, composta por Platão provavelmente entre 380 e 370 a.C., é o livro central da filosofia política ocidental. Aqui aparecem as analogias mais célebres da tradição: a alma humana tem três partes — racional, irascível, concupiscível —, que correspondem às três classes da cidade ideal — guardiões-filósofos, guerreiros, produtores. Cada alma, como cada cidade, está bem ordenada quando a razão governa, os guardiões obedecem, os produtores produzem. A alma desordenada é a cidade em desordem — e vice-versa. No coração do diálogo aparecem as três maiores metáforas filosóficas já formuladas: o sol, a linha dividida, a caverna. A caverna, sobretudo: a condição humana natural é a do prisioneiro acorrentado vendo sombras na parede; a filosofia é a libertação que permite sair, ver o sol e voltar para libertar os outros, ainda que à custa da própria vida.

A República é livro difícil, longo, e por vezes, ao leitor moderno, choca. A cidade ideal de Platão expulsa os poetas, coletiviza a propriedade dos guardiões, abole a família nuclear entre eles, submete tudo à hierarquia da razão filosófica. Karl Popper, no século XX, leu o livro como matriz do totalitarismo. Leitura severa e, em parte, injusta. Platão não está propondo uma constituição executiva — está propondo uma escala de referência pela qual se meça qualquer constituição real. A cidade justa, ele diz explicitamente no livro IX, “talvez só exista no céu, como paradigma para quem queira examinar-se”. O que fica, ao fechar o livro, não é o programa político, é a imagem: a caverna, a subida, o sol, o retorno. Esta imagem, sozinha, definiu o rumo de duas mil e quinhentos anos de filosofia.

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