Woyzeck
Franz Woyzeck é um soldado pobre, servindo como barbeiro de um capitão e como cobaia voluntária de um doutor que lhe impõe uma dieta exclusiva de ervilhas para estudar os efeitos. Vive com Maria, mãe de seu filho bastardo. Trabalha de sol a sol para sustentar a família. Ouve vozes. Vê visões. O capitão o ridiculariza por não ter “moral”. O doutor o usa. O tambor-mor, superior hierárquico viril e brutal, seduz Maria. Woyzeck, enlouquecido pela fome, pelo experimento, pela humilhação, pela traição, leva Maria a um lago e a esfaqueia até à morte. O texto, escrito por Büchner em 1836 e deixado inacabado à morte do autor, aos vinte e três anos, em 1837, só foi descoberto e publicado em 1879.
Woyzeck é a primeira peça moderna — antecipa em quase um século o expressionismo e o teatro do absurdo. Büchner, médico formado, poeta revolucionário perseguido pelas autoridades, escreveu-a a partir de um caso real: um barbeiro de Leipzig, Johann Christian Woyzeck, havia assassinado a amante em 1821 e sido executado após debates médico-jurídicos sobre a sua sanidade. O que impressiona na peça não é a história em si, mas o modo como ela é contada — em cenas curtas, fragmentárias, aparentemente desconexas, sem moral condutora, sem resolução final. O espectador é obrigado a montar o drama interior de Woyzeck a partir de estilhaços.
Nenhum texto trágico do século XIX apresentou, como este, um herói vindo das classes populares tratado sem condescendência nem idealização. Woyzeck não é trágico por culpa aristotélica — é trágico por pobreza. A sua loucura é social. Quem o esmaga — o capitão, o doutor, o tambor-mor — são os representantes de uma sociedade que, mesmo sem saber, conspira para destruí-lo. Brecht, Büchner, Heiner Müller e todo o teatro político do século XX reconheceriam neste texto a sua matriz. Alban Berg faria dele uma ópera em 1925, Wozzeck, que é um dos ápices da música do século. O texto, em estado puro, ainda hoje é leitura difícil — e por isso mesmo inesquecível.