Um Dia na Vida de Ivan Denisovitch
5 horas da manhã, um campo de trabalhos forçados no norte do Cazaquistão, inverno stalinista. Ivan Denisovitch Shukhov, prisioneiro comum, camponês russo, preso por “espionagem a serviço dos alemães” (acusação absurda forjada no final da Grande Guerra Patriótica), acorda com o som da sineta do meio-dia do turno noturno. Começa mais um dia de cativeiro. Ivan tem oito anos atrás. Faltam dois. Poderiam ser vinte. O livro, publicado em 1962, na breve janela do degelo kruschevista, registra as dezesseis horas seguintes desse dia: o café ralo da manhã, a marcha sob trinta graus negativos até o canteiro de obras, a colher escondida na bota, a tijolada construída no gelo com satisfação operária, o pequeno contrabando de fumo, o remendo na bota, a sopa da noite. Tudo miúdo. Tudo o bastante para mostrar o que é a existência humana despojada de quase tudo.
Soljenítsin, ele próprio prisioneiro político entre 1945 e 1953, sabia exatamente o que escrevia. O manuscrito foi entregue clandestinamente à redação da revista Novi Mir, cujo editor, Tvardóvski, conseguiu a aprovação pessoal do Nikita Krushtchov para publicá-lo. Foi a primeira vez, desde o fim do stalinismo, que a União Soviética admitiu publicamente, num jornal oficial, a existência do Gulag — sistema de campos que engoliu, por décadas, milhões de cidadãos. O livro teve tiragem imediata de centenas de milhares de exemplares. Criou a reputação que cinco anos depois permitiria a Soljenítsin publicar, em samizdat, Arquipélago Gulag — a obra que transformaria a percepção mundial do comunismo soviético.
O mais notável do romance, porém, não é a denúncia histórica — é a dignidade moral de Ivan Denisovitch. Não é um herói. Não é um intelectual. Não é um crente. É um camponês que aprendeu a sobreviver sem perder o gosto pelo trabalho bem feito, sem roubar a comida dos companheiros, sem denunciar ninguém à administração. No fim do dia, Ivan pode dizer, olhando para trás: “Passou-se um dia. Um dia completo. Nenhuma nuvem sobre o meu espírito. Quase feliz.” Soljenítsin descobriu, ao escrever este livro, que a verdadeira tragédia do stalinismo não era tornar monstros os homens submetidos a ele; era o contrário — era mostrar que homens simples, diante do pior, permaneciam humanos. Essa descoberta, mais do que a denúncia, é o que torna o livro indestrutível.