Michael Kohlhaas
Século XVI. Michael Kohlhaas, tratante de cavalos honesto e trabalhador, atravessa certa fronteira na Saxônia com uma tropa de cavalos. Um fidalgo local, usando de autoridade ilegítima, exige-lhe uma taxa inexistente e confisca-lhe dois cavalos magníficos até que ele apresente um passe. Kohlhaas, sem culpa, parte para obter o passe nas cidades vizinhas. Os cavalos, entretanto, são usados no trabalho dos servos do fidalgo e voltam, meses depois, esqueléticos. Kohlhaas reclama na justiça. A justiça, protegida pelos conluios nobiliárquicos, arquiva o caso. Kohlhaas insiste. É humilhado. A esposa, tentando interceder junto ao Eleitor da Saxônia, é espancada pelos guardas e morre em seguida. Kohlhaas, então, levanta um pequeno exército particular, queima a Saxônia em nome da justiça que lhe foi negada, torna-se o homem mais perigoso do Sacro Império, é perseguido, capturado, condenado à decapitação — mas obtém, na hora da morte, a restituição exata dos dois cavalos nos quais tudo começara. A novela é publicada por Kleist em 1808.
É uma das obras mais intensas da prosa alemã. Kleist escreve em frases longas, articuladas por conjunções subordinadas que se amontoam como vagões de trem. O ritmo dá ao leitor a sensação exata do que Kohlhaas vive: uma injustiça se empilha sobre a anterior, a rede de desonestidades se complica, até que a única saída visível é a explosão. Kohlhaas não é um criminoso. É um cidadão arruinado pela incapacidade do Estado de cumprir a sua função mais elementar — proteger os justos.
A pergunta que a novela lança — e que nem sequer tenta responder — é se a busca obstinada da justiça, quando o Estado falha, é virtude ou crime. Kohlhaas é as duas coisas simultaneamente. Tem razão absoluta; tem culpa absoluta. A ordem é violada pelo nobre que o espoliou; a ordem é violada pela vingança que ele organiza. Kleist, obcecado por este tipo de paradoxo moral, coloca o leitor em xeque. Thomas Mann, Franz Kafka, Doctorow, Coetzee — cada um, a seu modo, escreveu variações do caso Kohlhaas. A novela original continua a mais pura. Quem a leu não confunde mais retidão com legalismo, nem violência com injustiça — porque aprendeu que essas categorias são, às vezes, inseparáveis.