Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M76

Mensagem

Fernando Pessoa
Retrato de Fernando Pessoa por Adolfo Rodríguez Castañé.
Retrato de Fernando Pessoa por Adolfo Rodríguez Castañé.

Em 1934, ano anterior à sua morte, Fernando Pessoa publicou o único livro em português que assinou em vida: Mensagem. Um livro de poemas. Quarenta e quatro poemas, divididos em três partes — Brasão, Mar Português, O Encoberto. Pessoa inscreveu o volume num concurso literário estimulado pelo Estado Novo de Salazar e recebeu o segundo prêmio, porque o primeiro exigia mais de cem páginas. A sua Mensagem tem pouco mais de oitenta. É, no entanto, um livro completo. Nele, Pessoa condensou tudo o que pensara sobre o destino de Portugal — país então encerrado numa ditadura nacionalista — e tudo o que acreditava poder dizer-lhe, em forma poética, sobre o que ainda lhe era possível esperar.

Brasão é um conjunto de retratos dos heróis da fundação da monarquia e das descobertas: os reis Afonso Henriques, dom Diniz, o infante dom Henrique, Vasco da Gama, Afonso de Albuquerque. Cada poema é uma pequena medalha cinzelada com precisão heráldica. Mar Português canta as descobertas como aventura simultaneamente trágica e grandiosa — dela fazem parte os versos mais célebres do livro: “Ó mar salgado, quanto do teu sal / São lágrimas de Portugal!” O terceiro ciclo, O Encoberto, profetiza: chama-se assim em homenagem ao sebastianismo, à lenda do rei dom Sebastião morto em Alcácer-Quibir em 1578, que, segundo a profecia popular, voltaria em nevoeiro para restaurar o império.

Pessoa não é Salazar, embora o livro tenha sido publicado no primeiro ano do Estado Novo. Pessoa não é sebastianista ingênuo, embora tenha reabilitado o mito. O que Pessoa faz, neste livro pequeno mas denso, é propor a seus compatriotas uma leitura simultaneamente realista e espiritual da própria história: Portugal existiu para descobrir o mar; o sacrifício valeu; mas o ciclo está longe de encerrado. Um quinto império, que não é territorial mas espiritual, cultural, linguístico, pode ainda surgir — se o português souber ser digno dele. Mensagem é um livro de poucos versos e de muita exigência. Quem o leu com cuidado descobre que Pessoa, para além dos seus heterônimos famosos, foi também um dos últimos poetas épicos da tradição ocidental.

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