Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister
Wilhelm Meister, jovem filho de comerciante alemão de meados do século XVIII, está convencido de que a sua vocação verdadeira é o teatro. Apaixonado por uma atriz, foge à carreira comercial que o pai lhe traçara, junta-se a uma trupe ambulante e começa a aprender, no contato com atores, empresários, mulheres das mais variadas condições e personagens enigmáticos como o velho Harpejista e a misteriosa menina Mignon, o que vale a vida. O romance, publicado por Goethe em 1795–96, é considerado o fundador do gênero alemão chamado Bildungsroman — o romance de formação. Quase toda a literatura ocidental moderna que se ocupa do crescimento de um jovem deve algo, direta ou indiretamente, a este livro.
O Bildungsroman não é apenas o romance que conta como um jovem amadurece. É o romance que entende o amadurecimento como tarefa moral — algo que exige esforço, prova, fracasso, retomada. Wilhelm passa por todos esses estágios. A sua paixão pelo teatro acaba por ser dissipada quando ele descobre que o palco, embora ofereça beleza, não oferece a verdade que ele procura. A formação verdadeira virá, no fim do romance, da Sociedade da Torre — um grupo secreto de homens cultos que orientam Wilhelm para uma ação concreta no mundo, o casamento, a paternidade, o ofício útil. Goethe está dizendo, em última instância, que a maturidade não é a conquista de um sonho, mas o consentimento aos limites que o real impõe ao sonho.
Os Anos de Aprendizado pavimentaram o terreno para Tolstói, Mann, Joyce, Hesse — e para os romances brasileiros de formação, de Machado a Lobato. É um livro lento e por vezes digressivo: Goethe interrompe a narrativa para inserir análises de Hamlet, conversações filosóficas, baladas (a famosa “Conheces a terra onde florescem os limoeiros?”, cantada por Mignon, é uma delas). Quem o lê com paciência ganha não apenas a história de Wilhelm: ganha a chave para entender o modo como a tradição alemã pensou, durante dois séculos, a relação entre o eu e o mundo.