Análise do Filme
Quem Somos Nós? (What the Bleep Do We Know!?, 2004) é um filme americano que mistura documentário, ficção e animação para apresentar ao grande público uma suposta síntese entre a física quântica e certas correntes espiritualistas contemporâneas. O longa alcançou enorme circulação nos círculos da Nova Era do início dos anos 2000 e foi, por algum tempo, tratado como uma espécie de introdução popular aos mistérios do real. O professor Monir dedicou-lhe uma aula — não por concordância, mas pelo oposto: porque considerava o filme um documento exemplar da confusão intelectual característica do nosso tempo.
O argumento do filme é, em linhas gerais, o seguinte: a física quântica teria demonstrado que o observador modifica a realidade observada; disso se seguiria que o pensamento humano cria a própria realidade; disso se seguiria, enfim, que bastaria pensar corretamente — ou seja, positivamente — para transformar a vida, a saúde, as finanças e o mundo. Em cada um desses passos, o filme comete um erro lógico distinto. Os cientistas que ele entrevista, na boa fé, oferecem depoimentos tecnicamente corretos; o que se segue depois, em edição, é uma sequência de saltos injustificados. Os “especialistas” que sustentam a parte mais mística do filme são, na sua maioria, autores da própria Nova Era, sem credenciais científicas reais — um deles, JZ Knight, é uma médium que se diz canal de “Ramtha”, um guerreiro de trinta e cinco mil anos atrás.
Monir usava o filme como exercício pedagógico de discernimento. A aula consiste em examinar, passo a passo, os argumentos do filme e mostrar onde estão os erros — onde a boa ciência foi deturpada, onde o misticismo legítimo foi rebaixado em técnica de autoajuda, onde a autoridade foi emprestada a quem não a merece. É exercício salutar. Quem faz esta análise, e aprende a fazê-la, desenvolve uma capacidade preciosa: a de ouvir com respeito qualquer hipótese e, ao mesmo tempo, recusar-se a engolir aquelas em que nenhum dos passos se sustenta. Num tempo em que as pseudociências se multiplicam em redes sociais, a aula vale por um semestre de filosofia da ciência.