Otelo
Otelo, general mouro a serviço da República de Veneza, casa-se em segredo com Desdêmona, filha de um senador. O matrimônio escandaliza a cidade; a coragem militar do marido o salva. Tudo, até esse ponto, é romance. Acontece então a introdução de Iago, alferes preterido por Otelo, que decide, sem motivo inteiramente explicável, destruí-lo. Durante quatro atos, Iago trabalha com paciência de artesão: insinua, sugere, planta um lenço, provoca, apazigua. Ao quinto ato, Otelo sufoca a esposa, descobre tarde demais que a calúnia era falsa e se mata. Iago, desmascarado, recusa-se a falar. “Demandai-me de agora em diante o que quiserdes; nunca mais abrirei a boca.”
A peça, de 1604, é o mais perfeito estudo dramático da inveja já composto. Iago não é um demônio abstrato; é um homem comum, lúcido, competente, com queixas legítimas, e por isso mesmo é aterrador. A matéria de que Shakespeare o faz é o ressentimento — o veneno lento que apodrece o caráter sem barulho. E Otelo, general heroico, cai não porque seja estúpido, mas porque a mesma honra que o elevou o torna vulnerável ao que ele lê como ofensa à honra. Quem tem muito amor próprio tem muito onde ser ferido.
Há quem leia Otelo como peça sobre racismo, sobre ciúme, sobre patriarcado. Todas essas leituras dizem algo; nenhuma diz o essencial. O essencial é o modo como o mal real se insinua através do mal imaginário, e como a palavra — simplesmente a palavra, murmurada com doçura no ouvido certo — basta para transformar um marido confiante em assassino da mulher que ama. Shakespeare deixa o espectador paralisado: todo o crime que Otelo comete podia ter sido evitado por uma única pergunta direta. A pergunta não é feita. Nunca é feita.