Biblioteca do PeregrinoJosé Monir Nasser
M10

Macbeth

William Shakespeare
Henry Fuseli, <em>Lady Macbeth com os Punhais</em>, 1812 — Tate Britain, Londres.
Henry Fuseli, Lady Macbeth com os Punhais, 1812 — Tate Britain, Londres.

Três bruxas anunciam a um general escocês que ele será rei. A profecia basta para despertar nele uma ambição que ainda não sabia ter. Macbeth volta para casa. A esposa, Lady Macbeth, lê a carta, lê o marido e decide pelos dois. O rei Duncan é convidado a pernoitar no castelo. Macbeth hesita. Lady Macbeth força. Na madrugada, Duncan é assassinado. Macbeth é coroado. E, desse instante em diante, a peça inteira é o espetáculo de um homem que, para conservar o trono obtido pelo crime, precisa multiplicar o crime até transformar a Escócia num cemitério e a si próprio num fantasma.

Não há peça shakespeariana mais rápida, mais enxuta, mais cortante. Macbeth é também a mais aterrorizante — não pelo sobrenatural, mas pelo modo como mostra o funcionamento interno da consciência culpada. Nenhuma censura teológica é mais dura do que a que Macbeth sofre de si mesmo: perde o sono, perde o apetite, perde o sentido das palavras. “Amanhã, e amanhã, e amanhã” — seu último monólogo, diante da notícia da morte da esposa — resume a posição de quem matou o próprio futuro: a vida é um conto contado por um idiota, cheio de som e de fúria, significando nada.

Shakespeare escreveu a peça por volta de 1606, para um rei escocês, Jaime I, que se interessava por demonologia. Mas as bruxas importam menos do que o solo sobre o qual elas semeiam a profecia. Macbeth é o retrato exato do mecanismo pelo qual um homem capaz de virtude se torna instrumento do mal quando permite que a ambição tome o lugar da razão. A peça não é uma lição moral — é um espelho. Quem se vê nela, se conhece melhor. Quem não se vê, mente.

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