O Homem Revoltado
Em 1951, Albert Camus publicou L'Homme révolté — o ensaio filosófico mais ambicioso da sua vida e o livro que provocaria, no ano seguinte, a ruptura pública e definitiva com Jean-Paul Sartre. O tema é a revolta — entendida não como a revolução política, mas como o gesto filosófico-moral pelo qual o homem diz “não” a uma condição que lhe é insuportável. Camus segue a história desse gesto desde Prometeu e os antigos, passando pela Revolução Francesa, pelos niilistas russos do século XIX, pelo surrealismo do século XX, até chegar ao stalinismo e ao nazismo — que ele identifica como duas formas modernas de uma “revolta” que perdeu o limite e se transformou, por isso, em terror metafísico.
A tese central é que a verdadeira revolta, para permanecer humana, precisa conter o “sim” que é o outro lado do “não”. Dizer não a esta situação implica dizer sim a alguma coisa: a uma dignidade, a um valor, a uma solidariedade. Quando a revolta se torna absoluta — quando se converte em niilismo prático, ou seja, em negação de todos os valores —, produz-se o que Camus chama de “revolução messiânica”, que no século XX desembocou nos campos de concentração e nos processos de Moscou. O revolucionário moderno, que começou no nome da justiça, acabou matando milhões no nome da justiça. Camus, que havia combatido no movimento de resistência francês durante a guerra, era especialmente sensível a essa lógica.
Sartre e o círculo dos Temps Modernes romperam com Camus por causa deste livro. Acusaram-no de traição à esquerda, de moralismo, de anticomunismo burguês. Camus não voltou atrás. A ruptura foi o marco de uma divisão que atravessaria toda a intelectualidade francesa até a queda do Muro. Hoje, a quase meio século de distância, fica claro quem tinha razão. O Homem Revoltado é uma das análises mais penetrantes já feitas do modo como as melhores intenções se transformam nas piores práticas — e uma das poucas obras filosóficas do século XX em que a coragem moral do autor iguala a sutileza do raciocínio.