Notas para uma Definição de Cultura
Em 1948, três anos após o fim da Segunda Guerra, T. S. Eliot publicou um pequeno volume de ensaios — Notes Towards the Definition of Culture — em que tentava definir o que havia sido destruído pela guerra e o que, na Europa pós-guerra, deveria ser reconstruído. Os ensaios haviam sido proferidos como conferências em Londres e desenvolveram uma tese que Eliot vinha alimentando havia tempos: cultura não é erudição, não é polimento individual, não é lazer. Cultura é o solo vivo de uma sociedade — a rede de hábitos, instituições, religião, língua, família, costumes — que transmite, de uma geração à próxima, aquilo que uma civilização valoriza.
Eliot escreve como anglo-católico declarado. A primeira das suas teses é de que nenhuma cultura sobrevive sem uma religião — ela sim o cerne da cultura, sem a qual os outros elementos se dissipam. A segunda é de que a cultura exige hierarquia: diferentes grupos sociais contribuem de modos diferentes, e a tentativa de homogeneizá-los em nome da igualdade produz apenas a esterilidade geral. A terceira é de que a cultura precisa da região e da família — ou seja, das lealdades concretas, locais, herdadas, contra a abstração universalista que tende a dissolver as identidades em massa uniforme.
O livro foi recebido com ceticismo pela intelectualidade de esquerda que dominava a Inglaterra do imediato pós-guerra. Era muito conservador, muito pessimista, muito religioso. Hoje, a quase oitenta anos de distância, a obra parece mais necessária do que quando foi escrita. Eliot havia previsto, com precisão desconcertante, o que aconteceria com uma Europa que seguisse na direção contrária às suas teses. As Notas são de leitura rápida, prosa clara, ensaio honesto. É, junto com A Ideia de uma Sociedade Cristã (de 1939), o Eliot teórico mais completo. Não se lê Eliot poeta sem o Eliot ensaísta — os dois se iluminam.